"Cortei a laranja em duas, e as duas partes não podiam ficar iguais
Para qual fui injusto – eu, que as vou comer a ambas?"
Alberto Caeiro, Poemas
Em tempos de ultimação do novo Orçamento de Estado para 2013, por um governo da área popularmente chamada "laranja", surge-me a toda a hora a memória deste minúsculo poema "solto" de Alberto Caeiro (Fernando Pessoa), ao estilo de um "Aiku".
O dilema pessoano é também o nosso. As medidas em preparação, a especificar o já anunciado por Vítor Gaspar, vão saindo aos bochechos para as notícias, para assustar primeiro quanto à quantidade cortada e depois dar um alívio ridículo de uns milímetros da colocação da faca do Ministério das Finanças. Cortam daqui, aparam ali, mais ou menos percentagens de imposto aumentado, mais ou menos milhares de contratados "reduzidos" da Administração Pública (com prioridade mais uma vez para os já "esmifrados" professores, já o revelaram). Vem agora o Relvas a deitar a água na fervura antes da reunião com os parceiros sociais, depois de esses números, de 40 ou 50 mil funcionários contratados a prazo na lista do próximo corte terem sido entregues a esses parceiros, horas antes.Que não serão esse números! Não sabe quais, mas um bocado abaixo! Muito abaixo? Não pode dizer! Hummmmm...... Serão "apenas" 49 mil?Ou então umas meras 49.999 vítimas?(LER AQUI). Corte não cirúrgico, mas a eito, irracional.
E isso que interessa? Vão cortar e vão, pois já não sabem mais onde buscar tostões, estes "extremamente inteligentes" que nem uma casa devem saber gerir. Espalham , agoirentos, o "slogan" manipulado de que o empréstimo da Troika e os cortes a que esta obrigou servem para nos pagar salários e pensões, mas têm mãos largas como lezírias no que toca àqueles grande nacos fornecidos à vontade para bancos em geral e BPN( criminoso, falido, nacionalizado, anunciado como já vendido) em particular. Para certas áreas falam-se de somas astronómicas a rodos,enquanto que para a Saúde, a Educação, a Segurança Social , --ao que diz o Governo as áreas a que se destinam os nossos impostos(?!)--, quase que vão directamente aos porta-moedas de cada um para nos roubar...
E diz o PM que este Orçamento será mais justo, porque mais "equitativo" (a fazer ricochete revanchista à anterior censura pelo Tribunal Constitucional...)....
Como diz Caeiro, de que interessa um imaginário "rigor" no corte, se é para tudo ser comido, mais tarde ou mais cedo?
Estamos todos a ser comidos, roubados, espoliados! Não tenham dúvida. Quem não o reconhecer é porque também está a ser comido... por parvo.
Estamos todos a ser comidos, roubados, espoliados! Não tenham dúvida. Quem não o reconhecer é porque também está a ser comido... por parvo.
Em vez de irmos saudavelmente ao mercado em busca de laranjas e de quem queira trocar produções, agora são uns outros "mercados" que esfregam as mãos, esperando ambas as metades da laranja portuguesa suculenta. E esfregam também as mãos e lambem os beiços para pré-saborear os "bifes" e outros ingredientes do cardápio: a carnuda Espanha, a requintada Itália, o frutado Chipre, um dia o lombo da França...
E os patéticos desgovernantes do país e da Comunidade Europeia como serventes mordomos do banquete criminoso e injusto.
Até Caeiro, na sua busca de justiça simétrica, deve ter sido mais preciso e justo no corte que estes desgovernantes, não tenham dúvida também.
(esperemos que se venham a engasgar com os caroços...)
Margarida Alegria (9-10-2012, in blog "Alegrias e Alergias")
