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sábado, 28 de julho de 2012

Canta... para não chorar...(- Fantasia - Chico Buarque)


(MST "Fantasia",Chico Buarque; foto  da  capa: Sebastião Salgado)
Em dia de algumas  tristezas e algum desânimo, não tendo pé para muitas danças, resta cantar....

domingo, 6 de maio de 2012

Minha Mãe

(Madame Vigée-Lebrun , auto-retrato com a sua  filha.- Museu do Louvre)

O meu pai tinha uma forma linda e carinhosa de tratar a própria mãe ( minha avó, portanto).
A minha avó não era uma pessoa fácil. Muito autocentrada, tirânica até, nunca "ligou meia" aos netos ,contradizendo a ideia que se tem de "avozinha" (felizmente tinhamos outra, mas que nos durou muito menos...). Talvez apenas a neta mais velha tenha recebido uma prendinha dela, nos primeiros anos. Não se lembrava de nos fazer um carinho, era imperial, de dentro do seu arrebitado  metro e 40cm ; e  só falava de si: das classificações que tivera,dos cargos que tivera, das propriedades que tivera e sonhava ter, do que fizera, do elogio que um tal bispo lhe tecera... histórias que escutávamos todos os santos domingos e já sabiamos de cor.
O meu avô era, por contraste e equilíbrio,não tenho dúvidas, um Santo. Um Santo quase silencioso e sofredor. Profissionalmente fora seu superior e tivera  ainda melhor currículo, mas só tinha olhos para ela, deixando-a brilhar sozinha, contemplando-a embevecido do cimo do seu quase "o dobro" de altura. Mesmo assim os filhos veneravam-na e moviam céus e Terra por ela.
Ouvi sempre o meu pai a tratá-la, não apenas por "Mãe" (jamais por "Mamã", que não se usava!), mas ou por "Mãezinha" ou, o que era mais especial e delicioso , por "MINHA MÃE". Ele era "Oh, minha mãe, não faça uma coisa dessas!", "Minha mãe, sente-se aqui.", "Minha mãe deixe que eu trato disso."..
Aquele determinante possessivo fazia a diferença e reequilibrava o paradoxo espalmado naquela senhora. Fora mulher de armas e excelente profissional, mas à família não dera vida fácil, por feitio, embora cumprindo todos os deveres inerentes. Concluo, portanto, que deve ter sido uma boa mãe, pois para tantos filhos -- que em pequenos muito enfeitara com laçarotes e cabelos frisados "à menina", em foto de os embaraçar para o futuro(aguardando sempre por uma filha, que acabou por chegar) --continuava a ser a "MINHA Mãe". Não era a mãe de outros, não era uma mãe qualquer: a mãe era DELES e de mais ninguém.
Os meus irmãos e eu, tivemos, quanto a mim, uma sorte muito maior, quanto à Mãe que "os Fados" nos atribuiram, não só porque era e é a NOSSA/MINHA Mãe, não só porque foi uma professora exemplar, uma mãe dedicada e atenta, mas porque além disso foi e É ainda (graças a Deus!) uma pessoa de excepcional Humanidade. Talvez graças, também, à acção da SUA Mãe...
Como me disse um dia  uma amiga que a conhece e foi sua colega: "A tua Mãe é daquelas pessoas que ilumina uma sala  , quando entra!"
E tem razão.
 Ilumina, não como certas pessoas que têm daquelas atitudes imperiais em altas vozes e como  que "se fazem  anunciar" à chegada, mas por trazer sempre um conforto bom com a sua  mera presença. Longe de a atitude do "Cheguei vi e venci", pois até é bastante tímida ( agora com a idade, menos...), mas por recentrar tudo o que é importante, quando chega, mesmo que nada diga.
 Ilumina não só porque é bonita (e é-o , sem dúvida, não o digo por ser a "MINHA" Mãe...) e não só porque tem um sorriso rutilante e inesquecível, mas porque do seu interior brota um sentido optimista mas muito franco de ver as coisas, de encarar os problemas. Não um optimismo pateta de "laissez faire", mas aquele que resulta de olhar os outros com a atenção e o respeito que merecem, seja de que condição social for, fosse o estado de espírito dominante soturno que estivesse na dita "sala". Apesar da carga de problemas que carregava na vida, podiam estar todos a falar, por exemplo, da maçada da chuva, quando chegava e chamava a atenção para as flores que brotavam, o arco-íris que não tardaria, isto metaforicamente falando, claro.
Por isso lhe imploraram a certa altura para dirigir um Conselho Directivo numa escola difícil, no pós-revolução, pois  era a única que conseguia conciliar todos, mas a todos também ouvir e fazer justiça e levar a escola a viver para o que devia: ensinar (coisa que agora se está a perder de novo, a destruir,com a reentrada da política nas escolas via "directores" e Conselhos gerais cheios de autarcas).
 Dava-se bem com colegas da sua geração, mas era acarinhada e recebida em braços pelos colegas mais novos, que sempre se sentiam à vontade ao pé dela, ultrapassando barreiras de idade e de pontos-de-vista. Era capaz de dar um raspanete a uma funcionária por uma tarefa trapalhona, para mais tarde ser coberta de beijos e recordada com veneração pela mesma, tudo porque também sabia fazer o elogio justo na devida hora e tratava todos como seres humanos e iguais que somos na Criação.
Quando as pessoas diziam como era bonita, logo corrigia que a irmã, essa sim era bonita,-- realmente uma estampa de revista, de feitio mais coquette e rainha dos bailes. Porém quem via a minha mãe raramente a esquecia (não esquecia qualquer uma das duas!) , talvez pelo expressivo olhar, talvez pelo sorriso acolhedor, por todo um conjunto, uma presença com personalidade. Sendo considerada uma Sensata amiga, uma pacata filha e irmã, sempre tivera vários pretendentes a arrastar-lhe a asa, mas não ligara a nenhum, o mesmo acontecendo, curiosamente ao meu pai, com imensas a fazer-lhe olhinhos, mas mantendo-se respeitoso, distante e sonhador. Um dia, embora já se conhecessem através de irmãos, o meu pai fez com ela o trajecto a pé até à Biblioteca para onde ambos iam estudar em pós-licenciaturas, voltaram a fazer tais percursos (devidamente anotadinhos em agenda/mini diário, como mais tarde, nós filhos,  viemos a descobrir, espantados!) e foi um Amor para a vida. Mas isso é outra história...:)
A minha Mãe teve de largar os seus projectos de carreira universitária, seguiu o meu pai por vários recantos perdidos do "mundo" e do País, criando a família com uma notável vocação de Mãe. De Educadora.
Portanto, neste dia da Mãe, que poderia  ser num outro qualquer do Ano, este post não é, tenham lá paciência, dedicado a todas as mães, mas sobretudo à mãe que é a minha: à MINHA Mãe.
Impossível de sintetizar tudo o que foi e é para nós, seus filhos( vou fazê-lo saltitando no tempo, em vagas, centrando-me nas partes felizes): enquanto era "apenas" dona de casa, era a mãe atenta mas não excessivamente controladora, aquela a quem voltávamos , para contar os nossos pequenos dramas. Sabia sempre dar-nos um bom conselho, ajudava-nos a "ler" o que viveramos na escola. Incentivava-nos a nos abrirmos, sem forçar. A Lermos o mundo. Ver notícias em casa não era um tempo de silêncio: gostávamos desde cedo de comentar o que viamos, expor dúvidas pelo que se passava, interpretar as incoerências da Humanidade. Os nossos pais, ao contrário de muitos, incentivavam-nos a conversar às refeições, que eram quase sempre tempos vivos, proveitosos e alegres, como testemunhavam os nossos amigos.
Por vezes o voltar para a mãe era apenas para corrermos silenciosos para o seu abraço imenso, para lhes darmos as mãos, as suas enormes e confortáveis mãos que ,por vezes geladas da má circulação e de pouco tempo para  manicures, envolviam as nossas mais pequenitas.
Era os pedaços de papelão embebidos em água para nos sarar os "galos" na testa e lá parávamos o choro e andávamos a passear todos contentes até o papelão secar e cair. Um tinha um galo... todo o "rancho" pedia um papelão para os "galos" imaginários e solidários!
Era a supervisão distante dos trabalhos de casa, só maior para quando houvesse dúvidas, mas sempre atenta a que não fizessemos batotas nas contas, nas provas dos nove...
Nunca andou a aborrecer professores, a não ser que visse que algo nos angustiava e queria alertar os docentes para isso. Mas o professor era sagrado e deveriamos respeitar todos, por mais diferentes que fossem, tivessem o método que tivessem. Errados que pudessem estar, pois temos de conhecer todos os lados de um mundo assimétrico, nem sempre justo.  Dizia-nos:" se estiverem com dúvidas nas matérias, peçam-me ajuda, veremos o que se pode fazer, nem que eventualmente precisem de explicações, embora eu saiba que são todos inteligentes e não têm motivos para ter negativas. Mas AI DE VÓS que eu venha a saber que foram mal educados com algum professor ou funcionário! Para isso não há desculpa possível!"
Era o escutar as nossas fantasias, enquanto mascava as pontas das linhas ou com alfinetes na boca, enquanto nos costurava um vestido, cosia bibes, aplicava joelheiras e cotoveleiras na roupa dos meus irmãos, transformava um vestido numa saia de alças para as meninas, ou um velho vestido das meninas num vestidinho "novo" para as nossas bonecas.
Era a sua arte de receber as outras "madames" e ter de aceitar convites para chá quando preferiria estar connosco, mas também  a capacidade de conversar com as pessoas mais humildes.
Há poucos meses revisitámos uma nossa antiga casa e foi debruçar-se à janela do que fora o "quarto da costura", foi um regresso no Tempo: curiosamente o mesmo gesto que tinha diariamente, para espreitar se as nossas brincadeiras no quintal estavam a decorrer sem sarilhos.
O meu pai defendia que a nossa casa era em primeiro lugar para ser gozada por nós e só depois para os outros, por isso não era nunca daquelas casas-museu exageradamente perfeitas, que as crianças não podem percorrer no dia-a-dia. No entanto, faziam sempre o possível para que tivessemos sempre um recanto para nós, para desarrumarmos à vontade e brincarmos(coisas que agora tantos pedo-psiquiatras aconselham mas então era a sua sabedoria de pais que intuia): um quartito "de brinquedos", um anexo de quintal, uma grande sala na cave, um jardim-- houve sempre alguns espaços para nós nas casas que habitámos. Cabiam lá os nossos brinquedos, as nossas aventura imaginárias a imitar séries de TV, as festitas de adolescentes, os muito  e variados animais domésticos. De galinhas a gatos, de peixes a ratinhos brancos, de pombos a... salamandras(nem tudo ao mesmo tempo, calma!). Apenas demorámos a  que deixasse termos um cão, pois fora mordida em criança, mas lá acabámos por ter um, que até salvou de morrer e ao qual se dedicou com alma  de enfermeira Nightingale, até durar muitos anos mais! Para tudo dirigia a sua carência profissional da Biologia, desforrando-se no cuidar das plantas, no incentivar-nos a construir um lago minúsculo para rãe e girinos. Chegou a operar o papo de uma galinha!
Quando achou que já cresceramos bastante e viviamos numa cidade, foi leccionar (e em bom tempo o fez, antes de passar a ser "pai e mãe", como dizia...) e então repartiu a sua sabedoria e o seu sorriso maternal por muitas crianças, que passaram a venerá-la e às ciências, fazendo aulas de campo, observando os frascos que levava de casa com os nossos bichinhos apanhados no campo e já em formol-- do qual se destacava aquele que chamávamos de "Clerasil", um sapo gigante! Os meninos traziam-lhe os livros que tinham em casa sobre animais e a Natureza, tantos deles prendas de aniversário antes nem sequer abertas ou exploradas, e muitos enveredaram pela via científica pelo que neles a MINHA Mãe despertou, como mais tarde tantas vezes o testemunharam em encontros fortuitos. Biólogos, médicos, mas também juizes e  de outras áreas que tanto hesitaram se seguiriam letras ou Ciências. Foi das primeiras a dedicar bastante tempo a ensinar aos meninos o que era habitat e Ecologia. Ainda não havia quaisquer anúncios   televisivos de macacos "Gervásios" nem de sociedades ponto Verde e já a minha mãe procurava  ensinar-nos a reciclar, a filhos e alunos, procurando vidrões e as farrapeiras que recolhiam papel. Muita viagem fiz com ela a descobrir aonde ainda existiria uma "Farrapeira" nas redondezas!
Já a tinhamos menos em casa, mas continuava a ser a Nossa/ MINHA Mãe, assim como agora é a avó mimada pelos netos. Então era ela a poder a partilhar os seus próprios dramas diários, o aborrecimento por ter precisado de ralhar a um aluno, a felicidade pela aula com experiência de dissecação ou  de microscópio que correra muito bem , mas sempre sempre ainda  com tempo para nós. Só não tinha muito... para ela.

Claro que nem sempre o relacionamento com ela foi "rosas"! Claro que houve  discussões e choque de gerações, como com todas as mães. Tinha de haver. As gerações encontram-se e prolongam-se, mas estão irremediavelmente apartadas pelo Tempo: há modos de pensar que se adaptam e mudam e a MINHA Mãe acabava por aceitar as mudanças, mas nós também não a obrigávamos a pertencer à nossa geração. Queriamos nela  a senhora da geração anterior, a Mãe que era  e também amiga, mas não a amiga com vergonha de mostrar a sua autoridade de mãe. E longos anos já de ... pai e mãe em simultâneo. Quantas vezes não tinha a razão do seu lado, mas ganhava a discussão, graças a sua poderosa capacidade de argumentação... só no fim pensávamos: "'pera lá! Mas EU é que estava certa!".
( Poderia ter sido também uma boa advogada...!). :))
Já o meu pai era o sonhador romântico que nos ensinava a gostar de livros , de desenho e banda-desenhada, de aprender sempre  muito pelos livros e  a ter sempre curiosidade em aprender tudo. Era, como bem diziam, um homem bom como já "não se fabricam" e...enciclopédico. Uma lâmpada fundia e com a lâmpada na mão o meu pai explicava como funcionava, apontando para os filamentos e porque falhara. Enquanto durava a explicação, a minha mãe, a educadora prática, ia buscar uma lâmpada nova e colocava-a. Complementavam-se. O meu pai, ao contar contos de fadas, era preciso e romântico nos detalhes, fiel à história, do príncipe e da princesa, das Fadas,  do coelhinho que ia às couves e ficava sem casa. A minha mãe, por seu lado, para escândalo do rigor meu pai , fazia-nos delirar com os detalhes inesperados que introduzia nas histórias: o coelhinho ia às couves mas de permeio parava num recanto para... fazer cocó! ENA! ahahah! delirio e risos nossos, protestos do meu pai! O meu pai cantava muito bem, voz de barítono bem colocada, mas para canção de embalar, sobretudo se estivessemos com febre, tinha de ser a nossa mãe e mais ninguém, sempre a mesma cantilena sem letra (oh larô Larô. Larito...), fora de afinação não por má voz mas por uma cicatriz no ouvido, mas SÓ ela a podia cantar! Mais tarde descobrimos , num filme clássico , a preto e branco,que a anónima melodia era de... uma marcha militar!
Era  e é , portanto,  muito especial, a minha mãe. Talvez nos devesse ter obrigado a certas coisas, mas pelo menos obrigou a tantas  outras que muito agradeço: o sair do reduto do lar para ir a campos de férias formativos no Verão, para me tirar um pouco da "casca" e conhecer jovens de todo o país, sobretudo realidades diferentes ( conheci adolescentes com uma visão arejada e culta que tomara agora a tanto deputado de aviário quem nem sabem o nome dos preisdentes); obrigar a apanhar os autocarros para a baixa e ir a pé para a escola, obrigar a comermos tudo do prato, sem caprichos, nem que levássemos horas...

Porém não existem "cursos" para se ser mãe e pai. Todos erram, todos erramos, não há pais perfeitos, por melhores que sejam. Àparte  o caso daquelas mães desnaturadas que envenenam os filhos, "Mãe só há uma" e todos devemos estimar e acarinhar as nossas Mães, por muitos choques que  tenhamos com elas. Tudo porque é a NOSSA Mãe e Ponto final.
Acredito que as mães fazem o que sabem pelos filhos. Cabe-lhes fazerem o melhor que podem segundo as circunstâncias. Sobrevivemos às agruras da Vida com elas, por causa delas, apesar delas, por vezes. Mas é assim há gerações e gerações. Não devemos imputar-lhes as nossas frustrações. No meu caso sempre nos demos bastante bem, talvez por afinidade de feitios, embora não chegue ao seus calcanhares de "Sábia", mas também fez sempre menos cerimónia comigo do que com os meus irmãos, o que não é propriamente uma vantagem, bem longe disso. Mas foi assim que a Vida se traçou...
 Tantas e tantas recordações soltas! (que não quero que se percam na linha do Tempo) Também as dos gestos inesperados e especiais que tinha, com toda a sua generosidade, rasgos ousados do fundo da sua timidez: o deixar que muitas crianças amigas nossas vizinhas lá passassem tardes inteiras ,almoçassem e até experimentassem connosco cozinhados para lanches, a sujar a cozinha. "A sua casa deve ter mel!" Dizia-nos uma vizinha e amiga. O trazer o netito do merceeiro lá a casa para o garoto ver o que era um computador, então o ZX-Spectrum do meu irmão; como moveu mundos e fundos para ajudar uma senhora  quase desconhecida que estava para ser despejada da casa que sub-alugava (descobrindo a existência da APAV, então a dar os primeiros passos); as longas horas de conversa a tentar aconselhar amigas minhas que  a procuravam para desabafarsobre as suas dúvidas na escolha do curso;  e atitudes para  com completamente desconhecidos, como daquela vez em que havia uma greve de transportes e, subindo de carro uma longa avenida, se condoeu e parou para oferecer e dar boleia a uma  humilde avó  que subia o passeio a custo a pé com os seus netos!
Tantos e tantos momentos que jamais esquecerei. A MINHA Mãe, minha grande confidente e Amiga. A boa vizinha, a professora querida de outros, mas a MINHA Mãe...
Hoje já não aparenta a "mulher de armas" que foi. Os anos, as noites mal dormidas, a exaustão de a todos atender acabam por pagar o seu preço.
É um passarito jovial e diz sempre que" tudo é maravilhoso", desde o acordar, até algo que saboreia, da alegria em cumprimentar as meninas da caixa do supermercado até à amorosa  criança com quem mete conversa. "Foi tão bom falar consigo!".exclama, "como é tão bom tomar este café aqui!".  Raramente tem um momento "para baixo". Com a vida que levou, o problemas que nunca cessaram de lhe bater à porta, as autênticas tragédias que sofreu,  teria muitos motivos por ter desistido de lutar, por ter desanimado e deprimido em tantas alturas,para se tornar amarga e revoltada,  mas foi sempre a campeã da resistência.
Como tenho saudades dos seus conselhos, das recordações que me narrava e como me teriam sido tão úteis mesmo agora, essas conversas, eu feita adulta (que remédio!), em tantas ocasiões que vivi!
Hoje quem a vê nem sonha  que passou  o que passou, todos gostam de vir retribuir os beijinhos e abraços e cumprimentos que distribui por conhecidos e não-conhecidos com quem nos cruzamos, conseguindo pôr muito sorrisos em muita cara macambúzia que se ilumina depois da perplexidade inicial quando saúda! Agora tantos quase desconhecidos  vêm perguntar pela mãezinha, aquela senhora que distribui cumprimentos e elogios por quem passa , aquela que agora é de novo menina, onde descobrimos, com espanto, a garotita traquinas  e dançarina que deve ter sido antes de se tornar na jovem e mulher sensata e mais reservada.
Apesar de todas as mossas da vida, posso concluir que a MINHA Mãe, foi e é uma mulher feliz, sem rancores para com tudo aquilo com que a vida  a surpreendeu. Ela é sem dúvida a Nossa/Minha grande Heroína, o nosso modelo de vida, em toda a sua simplicidade e franqueza. Reina nela uma  tranquilidade luminosa, não derivada  de  qualquer  irresponsabilidade ou inconsciência mas precisamente por ter a mente limpa de remorsos, por ter procurado fazer sempre o que é bem, sem maltratar os semelhantes.
Ensinou-nos a ver o mundo com compaixão e  a sabermos distinguir que nem todos têm o que têm só graças ao "mérito", como se diz agora, que há muitas voltas na vida e que o Ser humano merece ser bem tratado não por ser inteligente ou famoso,ou por ter  sorte no destino,  mas porque é um nosso "irmão",  que com todos devemos ser atenciosos e justos, embora não devamos pactuar com o que vemos de errado.
Hoje goza o descanso de ser" filha" dos filhos  e de  ser avó ,agora ela apoiada, acarinhada, mimada até, uma "menina" linda sempre fresca e jovial, com pequenas rugas e manchas da idade quais marcos no mapa da sua vida quase sempre imprevisível. As mãos mais enrugadas mas sempre grandes, agora já com tratos de manicure.
 Mas sobretudo sempre e sempre aquele sorriso e aquela "presença que ilumina"  cada lugar onde entra!
 Muito mais havia a recordar, mas o texto vai longo e já tive que o "costurar". Acarinhem  e louvem as vossas mães neste dia, mas, usando a expressão do  meu pai, contra ventos e marés, esta foi e é  não uma qualquer e não a VOSSA, mas " a MINHA Mãe".
Margarida Alegria (6-5-2012, Dia da Mãe, in blog "Alegrias e Alergias")
(POST Scriptum: eu sei que fiz batota com a data da postagem, tendo passado dois dias desde que  escrevi o seu miolo até postar de facto, depois de tanto acrescentar, remendar e cortar ao texto. Tenham lá paciência. De cada vez que vinda rematar o post acabava a recordar mais coisas de lágrima no olho e a acrescentar detalhes, muitos dos quais acabei por retirar. Afinal, sempre é um texto sobre a MINHA Mãe, condescendam... A imagem que escolhi era, se a memória não me trai, uma das que surgia nas  tampas das caixas de chocolates que a minha mãe reaproveitava para guardar carrinhos de linhas).

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Há passarinhos com sorte--"Aubade" (Animação)




("Aubade", Dir. Pierre Bourrigault; Animação: Pierre B. e Samy Guyon Bessac; Música:Lorenzo Tomio; 2008)


Premiado com "The Best Animation Prize- Lago Film Festival, 2008, uma outra animação (ver post anterior- CLIQUE AQUI ), de estilo e "clima" diferente.


Para lembrar que, para cada passarinho ferido, pode haver quem se preocupe e cuide. Basta reparar e dar um pouco de Tempo e de Atenção. Não é o fim do Mundo.


Temos de estar atentos ao Mundo, a nós próprios, mas também a quem/ao que precisa de nós. Senão... o que andamos aqui a fazer?


Boa Noite!


"Alergia" (in blog "Alegrias e Alergias", 18-4-2012)

domingo, 15 de abril de 2012

I Am a Rock - Pois. "O Poeta é um fingidor"...



("I Am a Rock", Simon and Garfunkel, com letra)

Música de intervalo para jantar.

Uma da músicas de adolescência mais "escura" e introvertida.

"I have my books and my poetry to protect me"!...

pois... certo... :(

Do tempo em que alguns "escudos invisíveis" nos protegiam do mundo, qundo no fundo era a rede de segurança familiar que nos dava alento...

Agora , apesar desses apoios todos, estamos ao vento e em altas marés (ou, como cantam os Waterboys, "That was the River... (but) this is the Sea...")

Outros tempos. Não podemos voltar a pensar nestes termos, ou estaremos bem tramados...

Até já. (Para comer qualquer coisa, porque é hora, mas o apetite não é grande).

A força enviada para a Guiné-Bissau chama-se "força de reacção imediata"! E esta hem? Será para ir "além da Troika e.. além da Nato"? Tomara que se limitem a trazer os portugueses que de lá queiram sair...

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

LIVROS: "a Invenção" e o Cinema, Capas,Cobertores e versões

("A Invenção de Hugo Cabret", de Brian Selznick,Capa das primeiras edições portuguesas, 2008)
Não tenho por hábito recomendar livros, aqui no blogue, embora "viciada" neles. Talvez seja essa mesmo a razão: apesar de gostar que os outros leiam e de ter tantas vezes a missão profissional de falar sobre livros, motivar para a leitura, deve haver um desejo profundo mais irracional de que fiquem todos só para mim, de que , se os outros também se tornarem leitores compulsivos, os livros se possam vir a esgotar nas livrarias e bibliotecas e que assim se acabe o "fornecimento" desse meu vício, desse  meu mais que tudo alimento espiritual. Nããã... não é bem assim, na verdade o blogue ainda é muito recente, tem tido muito assunto da actualidade para comentar e raramente sobra tempo ou paciência para falar do que aqui gostamos de ler.
Pois bem, vou abrir forte excepção, desde que ontem vi as notícias na TV, e recomendar não um, mas até dois belos livros, exclamando: CORRAM JÁ PARA UMA BOA LIVRARIA ANTES QUE SE ESGOTEM!
Um deles, talvez a arrebatar com a maior urgência, é o "A Invenção de Hugo Cabret", de Brian Selznick, que agora vê a versão cinematográfica de Scorcese com várias nomeações para os Óscares 2011/12. Ah, dirão descansados os caros leitores, mas o filme vem já aí em Fevereiro e não  faltarão os exemplares na Fnac e tal e coisa... POIS É EXACTAMENTE POR ISSO, acrescentarei eu! Para já, nos próximos dias, ainda poderão descobrir algum exemplar perdido das primeiras edições originais , já em Português desde 2008 (?). Li-o e recomendei a amigos há un dois anos e foi "tragado" mesmo por quem não é leitor habitual de ficção.
Quando chegar a versão patrocionada por Hollywood já será tarde demais, embora o filme, pela amostra rápida que vi, me pareça uma versão fiel ao livro... só que não é a mesma coisa. Será tarde demais pois virá com daquelas capas HORROROSAS baseadas em  fotogramas do filme, que transformam em... "pastel de nata" achinesado e liofilizado as anteriores capas de artista das edições primeiras (aliás, na promoção recente do livro no "Wok" já lá está a capinha cinematográfica da praxe...). Poderá ser apenas uma capa dupla a envolver a original, mas ... também não é a mesma coisa. E neste caso é também provável que até lhe adulterem o título, igualmente por questões de marketing. O título é "A Invenção de Hugo Cabret", mas Scorcese chamou-lhe apenas "Hugo" e os distribuidores portugueses vão chamar ao filme "A Invenção de Hugo". E um nome de sabor mais latino, entre o Francês e o Catalão, que soava "Huugô Cabrê" na nossa imaginação (a acção não podia ser mais no coração de Paris do início do século XX), aí está a ser pronunciado pelos hollywoodeanos da nossa praça como um anglófono "Hiúgou"... e, quem sabe "Cab-rát" ou até "Quei-brat".
Que destruam a pronúncia. mas não adulterem a capa, que tão bem se conjuga com a época histórica e com a ideia de invenção! Como vêem acima, tem algo do estilo das tradicionais capas de lombada de couro dos livros de aventuras de Júlio Verne. Parece um bocado anacrónica, é certo, mas também ela contribui para que  o livro, como um todo, transmita também graficamente a sua mensagem. 
A tendência quer mercantil da associação a outros produtos, quer preguiçosa e economicista (leia-se avarenta) dos editores dispensarem tantas vezes os ilustradores de capas, há-de-ser, espero bem, moda das últimas décadas que irá passar. Aliás, no Reino Unido já está a passar, voltando as edições, quer de luxo quer de bolso com capas exclusivas e artísticas, mesmo que aparentemente simples, jogando com a simbologia e grafismo das letras, por exemplo. Por cá, tanto na ficção como na não ficção  e salvo honrosas excepções, impera para já aquela do "Ah... sobre esse tema pesquisa-se no Google images, nas Getty Images... ou então há um quadro clássico do pintor X, não sujeito a direitos de Autor, que se digitaliza, focando-se um pormenor e--- está feita a capa!".
O livro, por uma vez uma boa opção presente nas recomendações para alunos do 3º Ciclo , pelo Plano Nacional de Leitura ( ao invés do excelente "História Geral de Piratas" que NÃO é um livro de aventuras juvenil mas um relato fiel e sanguinário da pirataria e da perseguição aos  piratas, por amor da Santa!) faz-nos redescobrir os primórdios do Cinema e os mistérios que rodeiam o desaparecimento dos filmes do igualmente enigmático Meliès e consegue-o num romance para todas as idades que tem muito de novela gráfica e até de cinematográfico. 
À primeira vista, podem assustar-se com a espessura do volume, aparentando umas 500 páginas. Na verdade, lê-se num ou dois serões. A volumetria deve-se ao que de muito original tem a obra: com belíssimas ilustrações a lápis de carvão,  essas ilustrações não servem apenas para ilustrar, no sentido tradicional de transpor em imagem partes do texto, mas FAZEM PARTE intrínseca da narração. Por isso disse acima que havia algo de Novela gráfica neste romance. Um  breve exemplo: o personagem central, Hugo, entra num determinado espaço desconhecido. O texto conta isso, mas, de repente, em vez de nos descrever , por palavras, o abrir da porta, a entrada, os sentimentos (medo, ansiedade, etc) do adolescente, VEMOS isso na imagem, sem palavras, com ilustrações a encher ambas as páginas(várias páginas seguidas!),  a porta a entreabrir-se, um primeiro plano da cara de Hugo... e por aí fora. Para entender melhor, espreite AQUI um post com UNS VIDEOS/animações  que estão no Youtube,  com sequências de imagens do livro, para promover o mesmo  aquando do seu lançamento (?). E leia a boa sinopse do livro feita no blog "Porta-Livros", AQUI.
Por tudo o que acima explico e ainda por outras razões que lhe apeteça, vá já a uma BOA LIVRARIA tradicional (nada de compras online, senão arrisca-se a apanhar com o tal "pastel") e procure nas prateleiras mais escondidas, insista com o livreiro em desencantar um exemplar ("ameace" ir procurar à  concorrente gigante, a fnac... Já recorri a isso certa vez, na alternativa a encomendar que me procurassem um livro noutras dependências da Bertrand, porque esse outro livro estava esgotado etc e tal... o livro foi encontrado algures em três tempos!). A "Invenção de Hugo Cabret" é um livro muito especial, inclassíficável.
O outro livro que recomendo é uma novela gráfica.
Já é um clássico dos nosso tempos no género, embora apenas de 2003.
A minha chamada de atenção deve-se ao anúncio da sua edição em Português (finalmente!), há dois dias, no "Público". E mais uma vez o meu alerta vai para que o  tentem (também) adquirir em Inglês, não só pela questão de se perder sempre um tanto na tradução, mas também por questões de capa. Ora vejam a capa original:



("Blankets", de Craig Thompson,  ed. Top Shelf,2003- capa da edição original em Inglês)

Não vou contar a história (se quiserem tem AQUI a SINOPSE da Wikipédia). Apenas revelo que é a descoberta do Amor e de uma voz própria da personagem central (de cariz auto-biográfico),Craig, que cresceu enformado numa religiosidade doentia da família e de como foi doloroso o seu percurso de perda de Fé (o que tantas vezes acontece, a tanta gente, quando a Religião é um espartilho de normas e não uma semente de Liberdade). É também sobre a amizade, o Amor e de como até este é ilusório, tantas vezes. Revelo também que os blankets/cobertores do título evoca as brincadeiras de criança de Craig, quando(como muitos de nós já teremos feito)  brincava com o irmão sob um cobertor , imaginando  serem náufragos no mar alto,  exploradores da selva ,ou noutras situações de aventura inocente de miúdos.
A obra está num belo preto e branco, numa delicadeza, sensibilidade de enredo e de traço que é verdadeiramente tocante, que não deixa ninguém indiferente. Vejam  a capa acima: um momento fulcral da história, com os dois amigos descentrados na imagem, numa floresta de Inverno.
Pois bem. Vejam agora como é a capa da versão portuguesa, da  editora "Devir":
                 ("Blankets", de Craig Thompson. Capa da edição portuguesa, 2011, ed. Devir)
Que me lembre-- e nem li o livro há muito tempo-- não há nenhuma imagem dos dois amigos (não adianto mais se eram só amigos, eheh... mas esta capa pode baralhar) assim a enregelar num fundo AINDA MAIS invernoso!
É nitidamente uma montagem, ainda por cima acrescentando alguma cor, o que não era necessário, com uma das vinhetas do livro plasmada no exterior. Pergunto-me se o Autor autorizou a capa e se foi ele a fazê-la. Talvez sim. Mas é uma imagem que se destina, um tanto à portuguesa,  a espicaçar algum tipo de leitores macho-men, que às tantas  até ficarão desiludidos, depois de andarem a contemplar as "coxas desnudadas da moçoila...zz" da capa! Como diria também o tal diácono Remédios, "não havia nexexidade- Z-z--!", não que me choque ou veja mal na imagem em si, mas porque precisamente desvia (a atenção do leitor) do mistério e sobretudo da profunda SOLIDÃO  tímida que perpassa em toda a obra.*
E, numa obra essencialmente gráfica, mas também em obras não apenas gráficas,por tudo o que relatei acima,toda a opção na criação do livro, --desde a escolha da letra, à construção da narrativa,  passando pelas  categorias da narrativa, a escolha de cada palavra, as ilustrações, o papel e... a capa-- TUDO é importante, tudo AJUDA À MAGIA...
(* aliás, por comparação, vejam as capas das edições em outras línguas, no link da sinopse, que deixei acima... )
Margarida Alegria (26-1-2012, in Blog  "Alegrias e Alergias")