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terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Dia 2 de Março faz ouvir a tua Inquietação e defende a Democracia !- Inquietação - Camané e Dead Combo


(Camané e Dead Combo- "Inquietação"; versão de 2012 do  Poema e Música de José Mário Branco; animação : Ryan Woodward; montagem: Rui Ramusga)
Uma canção e um Manifesto
Há muito que não deixava música portuguesa por aqui. Vou redimir-me. E que música!
Já tinha escutado esta versão da "clássica" e fabulosa "Inquietação" de José Mário Branco, mas só  no início  de Janeiro surgiu um video no youtube, felizmente original e com bom gosto  e proporcional ao poema    e   ao quase fado.
Camané dá a voz , os Dead Combo acompanham.
Melhor tema não podia haver, para ir lembrando o próximo dia 2 de Março, sábado, onde o Movimento "Que se lixe a troika" convida todo o país a sair à rua e fazer escutar a sua voz, já que há quem pense que só temos direito a voz de quatro em quatro anos, em eleições rotineiras , e que de resto temos de ouvir, calar... e pagar, pagar sempre mais. Não por alguma dívida que tenhamos contraído, mas por uma que foi contraída em nosso nome e que agora nos sangram em impostos e taxas várias, com juros de agiotagem, enquanto os responsáveis continuam protegidos, à solta, a fazer "das suas", a lucrar com a desgraça do país, que se humilha sem soberania, sem esperança, sem a atenção dos governantes que haviam prometido justiça e por todos zelar.
Não podemos  continuar a deixar que falem em nosso nome e depois ainda nos acusem de "censura", quando em manifestações pacíficas o povo canta  "Grândola Vila Morena", como forma de protesto. Decerto estariam mais preparados para bater em quem atira pedras ou parte montras, como noutros países, do que em quem usa formas de resistência pacífica, protestos imaginativos. Mas é este o caminho: o da resiliência, o do protesto a moer-lhes o juízo, o da Não-violência.
Violência existe, mas essa é a que vemos neste sistema cada vez mais desigual e desequilibrado que nos leva a alma e os bens. Violento é o espírito da escassa minoria que nos quer remeter à escravatura em versão do século XXI, que nos quer limitar à miséria, a um Futuro sem opções, sem saídas. Um Futuro... "sem-abrigo".
Vivemos tempos de inquietação, mas não devemos confudi-la com o Medo, que tanto nos querem impôr. Ainda temos voz: vamos portanto para os centros das nossas cidades e mostremos, nestas manifestações, que somos de tal forma o tal "Melhor Povo do Mundo" (nas palavras hipócritas do tributário-mor do "reino"), que rejeitamos esta  forma de gerir um país, a despejar tudo em buracos sem fundo de bancos meliantes e   de especuladores vampirescos. O "melhor povo" que rejeita  esta distorção da democracia , num regime que nada respeita: nem as promessas feitas, nem sequer a Constituição, a nossa lei básica que esses políticos juraram cumprir.
O "melhor povo do mundo" tem os PIORES políticos do mundo, que não o merecem, que  agora terão de escutar, sem "filtros" nem distorções dos "fazedores de opinião" das TVs e jornais, esses tudólogos que argumentam que o povo " não entende as mensagens de quem governa", que é tudo questão de  melhorar a "COMUNICAÇÃO" das medidas carrascas que nos vão despejando em cima.
 Comuniquemos nós. NO dia 2 de Março, o povo português, presente nos seus cidadãos de todas as condições e lugares, irá ,ele agora, COMUNICAR melhor aos (des)governantes e restantes políticos ---que ainda não parecem ter entendido as mensagens, nem do dia 12 de Março de 2011, nem do dia 15 de Setembro de 2012, nem de todas os outros protestos feito ao longo das últimas décadas-- que os portugueses não aguentam mais austeridade, aliás, o roubo institucionalizado transvestido de austeridade, que os portugueses estão saturados de políticos demagogos e/ou corruptos, de políticos mentirosos e sem sentido de serviço e sacrifício pelo país, de "economistas"-videntes que tratam as pessoas como números, de governantes que resolvem todos os problemas indo buscar aos bolsos  dos que menos podem (aos seus impostos, ao corte dos seus salários,  que já  eram dos mais baixos da Europa, aos subsídios escassos dos carenciados, às pensões dos idosos, aos fundos que deveriam ser para cuidar de doentes e de crianças) o dinheiro de que precisam para as suas megalomanias,ou para o favorecimento dos negócios dos seus amigos e dos mais poderosos. Os portugueses não querem mais que a política, a que deveria ser o "serviço da cidade", da Polis,  esteja subserviente perante o poder económico, sobretudo diante do poder  financeiro especulativo, o ramo da "economia" que nada produz e que é sempre o mais sôfrego, o mais insaciável, o mais dominado pela cobiça, precisamente por ser o que menos entende quanto custa  sonhar, produzir , criar riqueza num país. 
Os portugueses desprezam, com proporcional e retribuída sanha, os senhores (sempre os mesmos) da alta Finança que despoletou esta "crise", a nível Mundial e a nível nacional, aproveitando-se de políticos corruptos (ou simplesmente estúpidos) para sugar as posses de países inteiros,-- e dentro destes dos bens   dos seus cidadãos,  do haveres de  famílias e de pequenas empresas--, de forma a compensar as suas irresponsáveis movimentações/apostas de dinheiro. Portugal não quer mais ser comandado por quem joga na roleta da bolsa  e das negociatas com o dinheiro dos outros.
Portugal, terra do "melhor povo do Mundo", com quase 900 anos de existência (e já habituado, em momentos mais graves, a rejeitar  e até a "defenestrar" os que escolhem  trair o seu povo, para o vender a poderes exteriores), não quer que continuem a vender as suas melhores  e  mais lucrativas empresas ao desbarato,  a vender o seu território a outros, a vender a sua mão-de-obra a preço de escravo, emigrante ou dentro de portas.
 O que foi conquistado nas últimas décadas, as melhorias sociais, de nível de vida, a maior equidade e os direitos sociais do 1º Mundo, foram até sugeridos  e incentivados pela Europa dita solidária que nos queria integrar como povo igual,  a mesma Europa que tivera vergonha de Portugal e dele se arredava , nos 48 anos da ditadura salazarista (ou esquecem todos os países do mundo ocidental que tinham  cortado relações diplomáticas connosco nessa época?). Esse progresso económico e social, ainda longe do ideal, não foi um favor, uma benesse da vida, caída simplesmente das nuvens, mas algo que pagámos bem caro, com  aumento de preços, com carestia de vida, com o nosso próprio suor,  com o abandono forçado de agricultura, de pescas e de outras fontes produtivas, com todas as vantagens que o nosso progresso trazia também aos que cá nos queriam vender os seus bens.
 Diziam-nos que tinhamos de melhorar qualificações, melhorámos; tinhamos de incentivar a  melhor formação dos jovens, incentivámos; tinhamos de aumentar a esperança de vida da população, aumentámos. Já então eramos os  tais "bons alunos", embora já então medrassem no nosso meio os "cábulas" da política caciquista e corrupta que cada vez mais se instalou e minou os poderes nacionais. E afinal para quê? Agora dizem estes mesmos e os outros que temos de regredir, pois alegadamente viveramos "acima das nossas possibilidades". E, curiosamente, muitos dos que  agora se reclamam os "bons alunos" da troika, batendo hipocritamente no peito e impondo o castigo  beato e parolo da "prevaricação" a todos, são   muitos dos mesmos que antes copiavam,  dos que não estudavam e preparavam os seus esquemas de cábulas, dos que, rindo-se nos protegidos "aeródromos" das suas carteiras,  atiravam aviõezinhos  bem "tecnoformados"  à cabeça e à paciência dos outros alunos. 
Não deixaremos que se continue a confundir uma sensata poupança e o honrado pagar de dívidas, preocupações  de povo honesto e calmo que somos,  com o idolatrar da  austeridade cega e só para alguns, com estas políticas de destruição de direitos e de   REimplantação da pobreza, esse delírio doentio de uma minoria resguardada dela,  resguardada também , com todas as manhas, das leis macabras que cria para os outros.
A nossa Inquietação e a nossa voz têm de ser expressivas neste sábado, deixando de vez o medo , ou  a  indolência frente à TV. Comecemos a  preparar os cartazes,  a afinar  a voz para os cânticos, a dar a "corda os sapatos" para caminhar ao lado dos  nossos concidadãos em indignação, nossos iguais em dignidade ferida,  enquanto temos ainda um País, mostrando o quanto o queremos defender da espoliação e da humilhação, do estatuto de protectorado. 
Vamos pelas ruas e exijamos, cada vez mais, uma nova maneira de vivermos a democracia, exijamos aos políticos que sejam responsáveis e prestem contas pelo que decidem. Mostremos que não somos um povo adormecido nem muito menos resignado. Mostremos que entendemos muito bem o sentido das medidas homicidas que nos querem impor, que os portugueses estão longe de serem os burros de carga e os parvos porque os tomam alguns senhores do país. E digamos que NÃO queremos, medidas dessas, COMUNIQUEMOS-LHES (já que são duros de ouvido e de senso) que os governos devem ser para  servir Portugal e o seu povo não para  deles se servirem  e abusarem. Portugal não é deles, nem dos credores, Portugal é a " nação valente e imortal" que celebramos em Hino. (Um Hino nacional, "A Portuguesa". Já ouviram falar , senhores da troika e troikistas? )
Mostremos que queremos o nosso Futuro, a nossa Liberdade a nossa Vida. Incerta  e inquieta que possa ser  a Vida nestes momentos de coragem ,de mudança, de resistência ao mal que não queremos,  ela só pode continuar se de rosto levantado e sem medo, em cidadania participante e solidária.  E, tal como canta a "Inquietação"... "essa coisa é que é linda!".
Margarida Alegria (26-2-2013, in blog "Alegrias e Alergias")

(pronto,  entusiasmei-me e fui por aqui fora, mas até mais haveria a dizer, como sabem. Dia 2 não há desculpa: há manifestações em quase todas as capitais  de distrito e noutras cidades: até em Madrid,em  Londres e em Boston! CONSULTAR AQUI os locais e as horas, para já em 35 cidades).
 Não nos devemos unir apenas para  o Futebol...DIA 2 de MARÇO, vamos mostrar que os CORAÇÕES dos portugueses batem em uníssono, pela HONRA  E FELICIDADE das nossas vidas e  pelo ORGULHO no noso  país !

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Contra o Medo que mina os professores(uma "rabanada de Vento" da AL)


Não tinha chegado a escrever aqui algo sobre a manifestação de professores da semana passada (dia 26 de Janeiro). Mas fiquei sem palavras a dizer, quando deparei com este fantástico post da minha querida amiga "AL"/Ana, no seu "Oventoquepassa". Disse tudo o que urge dizer sobre o que se passa na Escola Pública e quanto à luta dos professores...
Deixo aqui o link do post e recomendo a leitura, bem como a visita a todo o magnífico blogue:
O poder de que os professores tristemente abdicam" (in blog "O Vento que passa")
O que a Ana salienta é a incompreensível atitude de cedência e até de medo (pelos professores) ,que vem minando as Escolas por dentro  e destruindo a causa pela Escola pública,nestes últimos anos amargos. Saliento um extracto do texto, mas recomendo vivamente a leitura completa:

"os professores têm de se consciencializar do enorme poder que detêm, e usá-lo, sem medos nem mesquinhices. Têm de arriscar perder alguma coisa, dois, três dias, uma semana de salário, se querem ganhar esta guerra de batalhas tantas(...)"

A Ana não fala de cor. Não sei se sabem, mas o seu blogue, "O Vento que passa" é um pequeno reino de bom gosto, de sensibilidade e de reflexão inteligente. Destacou-se em particular nos anos de luta contra a megera Lurdes Rodrigues. Alguns dos seus primorosos textos circularam por mail, de tão bem escritos e corajosos que eram, ousando mostrar como a profissão docente é nobre e intelectual e que os professores  têm o dever de defender aquilo a que têm direito- sobretudo tempo para aquilo para que se formaram (e superiormente!): ensinar. Posts que não se importavam de expor de forma detalhada tudo o que era e é urgente defender no Ensino em Portugal, estando-se nas tintas para a brevidade feita espuma dos dias que se recomenda para o tamanho de posts. Quando é para escrever e detalhar, não devem existir tais calculismos. Um dos seus posts, inclusivé,  andou a circular pela Internet como se fosse anónimo e/ou atribuído a terceiros, chegando a ser a sua leitura recomendada, imaginem... à própria autora!
O seu blogue continua vivíssimo por aí, quando a "AL" até já nem teria  hoje qualquer obrigação profissional ou moral para o escrever. Mas, uma vez professor(a), sempre professor(a), como se costuma dizer. Ou, como dizia há uns anos  largos uma outra amiga minha, isto de ser professor, "torna-se um vício". Balelas para quem reclama que só pode ser professor quem tem "Vocação"! O que é isso de vocação? Fala-se em um padre precisar de vocação (e mesmo assim...), uma mulher que sente  especial "vocação" para a maternidade(mas mulheres que não se imaginavam a ser mães tantas vezes vêm a ser excelentes mães), porém... acaso outros profissões exigem uma "vocação"? Do estilo "Ah, quando era pequenino sonhava ser gestor de marketing" ou "senti vocação para  economista e ministro das Finanças, "assessor-especialista de um ministério" ou algo ridículo como "em criança sempre quis vir a ser secretária administrativa/ técnico de frio/ vendedor de seguros"... As poucas profissões sonhadas em pequeninos passam mais pela fantasia, como o vir a ser polícia, astronauta, bombeiro ou hospedeira do ar. Desenrolam-se estes estereótipos ao longo de décadas e vamos deixando, virando-os tantas vezes contra nós, quando deveriamos agradecer termos um país onde AINDA há professores suficientes para as necessidades (mas já não em todas as disciplinas!), quando em outros países (que cometeram esses erros nos sistemas educativos) agora já só querem saber se conseguem convencer gente suficiente  e que não fuja a esta ingrata e tão massacrada profissão...e sobretudo gente que tenha tanta e tão especializada qualificação quanto existe actualmente na classe docente portuguesa! Quem dera a esses países(e não são  só no  dito terceiro mundo)!  Mas não: muitos cidadãos , a tutela do ministério e  tantos (des)governos em Portugal dão-se ao luxo de desprezar os docentes que existem, dizendo que "são demais" (o que é mentira!), que só estão na profissão por "não terem jeito para mais nada"!... não terem... "vocação"!
Ora o que interessa, quando se tem uma profissão, é tomarmos o que fazemos em mãos e tentarmos ser bons no que fazemos. De resto esssa conversa de vocação é vazia! O que a profissão docente é sem dúvida, para quem alguma vez passa por ela, é um "bichinho" que nos fica inoculado para sempre, a vontade de educarmos, de ajudar  crianças , jovens ou graúdos a descobrir os conhecimentos do mundo, a amar o saber. Quem é ou foi professor, sempre que lê um bom livro ou vê um filme marcante fica com a vontade de logo alertar os seus alunos para essas obras e quando já não tem alunos fica a imaginar as aulas que faria com aquelas descobertas. E quando está entre os seus, em casa, quantas e quantas vezes não o/a mandam calar com "Lá estás tu a ser professor(a) e a falar de escola e de aulas!"...
Sim, ser professor é um vício que nos acompanhará para sempre. Só não sei  bem dizer se é fatídico.
A Ana é uma dinâmica professora-blogger das que sofre por a nossa classe profissional não  ter ido mais além no enfrentar as bestas que querem destruir a Escola Pública. A Ana é da mão cheia dos que ainda ousam sonhar algo diferente e melhor para a Educação em Portugal.
Não é das que são arrogantes e dondocas às Segundas, Quartas e Sextas   e que às Terças,  Quintas e Sábados se transformam em solidárias e lutadoras, para poder virem a ser consideradas umas resistentes corajosas e se" fazerem importantes". Não , não é assim a  Ana. A Ana sente a profissão e é/será educadora todos os dias, mesmo quando se recolhe a algum  silêncio.
Como amiga, também é das que está connosco quando é preciso, dando força. Não é das que promete mas depois enxota. Foi das primeiras a apoiar a criação do meu blogue e das primeiras a aderir a este site também. Essas coisas jamais se esquecem, pois a Ana não é só feita de palavras.
(e tem  sensibilidade ,  inteligência  e humildade que sobram; por isso não lhe dará   para vir a considerar estes meus elogios sinceros  de amiga como um exemplo de... "stalking", e fazer queixa à polícia etc...eheheh!-- é verdade, há quem se lembre disso, fora de brincadeiras!!! Essa estupidez não foi minha, por isso não sei porque hei-de calar mais tempo o meu espanto!)
Visitem o seu blogue e  leiam este seu texto, de entre os vários marcantes que já escreveu. E pensem. Pensem nas formas como quem ama a Educação terá de vencer o medo e o conformismo, pois será a única forma de defender a Escola Pública, a que de facto tem gerado( pela sua qualidade até agora) tantos jovens qualificados que hoje dão cartas pelo mundo fora...
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Tinha outro post pronto para publicar, mas  não trata de algo tão importante, por isso agendei-o para amanhã após o almoço, pois este texto da Ana merece uma leitura destacada e tranquila de final de Domingo.
Margarida Alegria (3-2-2013, in blog "Alegrias e Alergias")
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ADENDA:
No próximo dia 2 de Março, decorrerá, em várias cidades do país, uma nova manifestação "Que se lixe a troika- o povo é quem mais ordena", cerca das 15h (locais  de partida e horas serão divulgadas mais tarde). Todos os portugueses insatisfeitos com o rumo da nossa democracia estão convocados. Façam ouvir a vossa voz!
Um manifesto de título "Maré de Educação" marcou  entretanto para as 14h, frente ao MEC, na 5 de Outubro em Lisboa, uma concentração de professores, que depois se juntará à manif nacional que parte do Marquês de Pombal e vai até ao Terreiro do Paço.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Depois do Rio, o Mar... (Música para o serão)


The Waterboys- This is the Sea"
Como    a letra da canção  sugere, a vida não é apenas como (segundo a vulgar analogia) um belo  e simples rio, por onde fluimos com os nossos projectos, sonhos e receios, com maior  ou menor corrente, mas desaguando pacificamente no Oceano.
Há  Eras e momentos  marcantes da vida individual e/ou colectiva em que, sem que nos tivessemos equipado com bóias ou coletes,  damos por nós  directamente    no mar  , longe do nosso trajecto fluvial, sem cais que nos acolha...
Portugal, a Europa, boa parte de nós... encaramos um momento desses.
Incerto, medonho, avassalador...
Pensaramos saber tudo da nossa própria navegação.

 "But that was the River... This is the Sea.."
Enfrentemo-lo pois, olhando a onda de frente. Poderemos sair um tanto machucados e molhados. Só não sejamos condescendentes com monstros que nos sonham tragar,  com as rochas  mais duras e escorregadias que não são porto seguro, nem com as voláteis medusas, viscosas e traiçoeiras teias marítimas.
Um arrepio percorre-nos a espinha, mas assim como rio era "nosso", assim também será o Mar.
"Behold the Sea!"
Boa noite...
"Alergia" (6-11-2012, in blog "Alegrias e Alergias")
Aqui a letra:
"This is the Sea"
These things you keep
You'd better throw them away
You wanna turn your back
On your soulless days
Once you were tethered
And now you are free
Once you were tethered
Well now you are free
That was the river
This is the sea!

Now
if you're feelin' weary
If you've been alone too long
Maybe you've been suffering from
A few too many
Plans that have gone wrong
And you're trying to remember
How fine your life used to be
Running around banging your drum
Like it's 1973
Well that was the river
This is the sea!
Wooo!

Now
you say you've got trouble
You say you've got pain
You say've got nothing left to believe in
Nothing to hold on to
Nothing to trust
Nothing but chains
You've been scouring your conscience
Raking through your memories
Scouring your conscience
Raking through your memories
But that was the river
This is the sea yeah!

Now
I can see you wavering
As you try to decide
You've got a war in your head
And it's tearing you up inside
You're trying to make sense
Of something that you just don't see
Trying to make sense now
And you know you once held the key
But that was the river
And this is the sea!
Yeah yeah yeah yeah yeah yeah yeah!

Now I hear there's a train
It's coming on down the line
It's yours if you hurry
You've got still enough time
And you don't need no ticket
And you don't pay no fee
No you don't need no ticket
You don't pay no fee
Because that was the river
And this is the sea!

Behold the sea!

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Enquanto decorre o Conselho de Estado, um Prelúdio Musical:Cantiga para quem Sonha - Luiz Goes


(Luiz Goes,Cantiga  para quem  Sonha"; video de  Cristina C. Gil,2011)
Na homenagem tardia a Luiz Goes ,falecido há dois dias , o maior dos intérpretes de Fados de Coimbra (e mais famoso,exceptuando  José Afonso).
Há muitos anos que não escutava este tema um dos mais cantados nos Campos de férias, para além  do"Canto Moço" do referido Zeca Afonso.
A letra é sempre actual  e adequada aos dias que correm não acham?

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Anteontem: Segunda Vigília Pela Educação(17-9-2012-Sic)



(Vigílias no Porto e em Coimbra contra a nova estrutura curricular, formação de mega-agrupamentos e pela vinculação dos professores contratados, dia 17 de Setembro de2012,  notícia na SIC)

A tal  a que  não pude ir.. :(((
100 participantes  no Porto e 30 em Coimbra?! :(
E  também decorriam em Braga e em Lisboa....porque não mencionaram? A mesma apatia docente de sempre pelas bandas da capital! Concordam com estas políticas que estão a destruir   a Escola Pública?! Custa muito sacrificar 4 horas   e  abdicar das novelas? Não há meio de entender... Na Educação, tal como na luta contra as "desmedidas" das Finanças nacionais, precisamos   de ser persistentes a manter acesa a chama destes  protestos ...
Ah... mas muitas pessoas gostam de milagres e de salvadores instantâneos, não é?
Esquecem  a lição fundamental: nas Causas, como na nossa Vida, o nosso "Salvador" devemos ser nós próprios, mas tomando parte  no que se organiza de interacção entre pares.... Até os bandidos das  quadrilhas ,  financeiras ou outras, sabem isso muito bem.
É como dizia "o outro": o Bem venceria, se os bons dedicassem tanto empenho ao Bem quanto os maus dedicam ao Mal. (a frase não é  bem assim, mas fica a ideia. O autor é muito famoso mas agora passou-me...).
Amanhã dedico mais tempo a reflectir sobre estas iniciativas de Professores, com fotos da primeira Vigília, em Julho passado. Agora estou demasiado desiludida, embora ao mesmo tempo contente com a dignidade e a participação variada que pude ver nas imagens (alunos, pais... vá lá...) Força, MJ , I. , JP e restantes amigos/as.
Ai Portugal, Portugal.... :((
Deixo aqui o texto do Comunicado desta  segunda Vigília:
"Estamos aqui para provar ao senhor Ministro da Educação e à sociedade civil que estamos unidos e que acreditamos na escola pública, numa escola para todos e não apenas para alguns;
- Estamos aqui para dizer, neste que foi o PRIMEIRO DIA DE AULAS em muitas escolas, que as coisas não estão bem nas Escolas e que é necessário contar a toda a gente o que realmente se passa dentro delas:
- Tal é a desorganização nas escolas que muitos dos horários dos docentes foram concluídos até à última hora;
- Existem professores com 10 ou até mais turmas, cada uma podendo ter até 30 alunos, o que poderá perfazer cerca de 300 alunos por professor;
- Que esse elevado número de alunos por turma compromete seriamente o apoio individualizado aos mesmos, o seu sucesso educativo e inclusive fomentar casos de indisciplina. A própria OCDE refere num relatório divulgado há dias que o aumento do número de alunos por turma piora o nível da educação;
- Constatar que existe uma escola dirigida por uma política de medo, cujos professores são seus reféns;
- Que os mega-agrupamentos, escolas que custaram milhões ao erário público, não têm dinheiro para pagar os seus custos operacionais mensais. Estas escolas, com milhares de alunos sem a supervisão devida, em vez de se regerem por uma proximidade entre direção, professores, alunos e restante comunidade educativa, são cada vez mais desumanizadas.
- Estamos aqui porque um dos grupos mais afetados a nível de estatística do desemprego são os professores, que de um ano para o outro… deixaram de poder trabalhar, embora sejam necessários nas escolas. Aliás, Nuno Crato tem referido repetidamente que, nos últimos anos, o número de alunos tem diminuído, apresentando esta justificação para o corte no número de professores este ano letivo. No entanto, os dados oficiais DESMENTEM esta justificação ministerial: a Direção-Geral de Educação refere que o número de alunos aumentou nos últimos 3 anos; também a OCDE prevê um aumento de 10% dos alunos entre os 15 e os 19 anos, em 2015, em comparação com a última década. Isto, já para não falar no número de alunos que, devido à crise económica que vivemos, tem passado do ensino privado para o público.
- Estamos aqui para dizer BASTA… Não somos os bodes expiatórios da crise. Esta situação em que milhares de professores se encontram é o fruto de políticas educativas falhadas de sucessivos governos e dos seus experimentalismos.
- Estamos aqui para contestar as políticas educativas que são erradas, puramente economicistas e que, visto sermos nós que as colocamos em prática diariamente nas escolas, queremos ser ouvidos e queremos desde já a REVOGAÇÃO DA REVISÃO CURRICULAR e um AMPLO DEBATE sobre o assunto.
- Estamos aqui, neste movimento cívico, para demonstrar a nossa INDIGNAÇÃO e decidir o que queremos fazer com a nossa LUTA e ouvir-vos a vós: Professores, encarregados de educação e restante sociedade civil porque, seja aqui ou de outra forma, entre a inação e a ação, nós preferimos a ação.
Para terminar, gostaria de dizer que estou com a terrível sensação de que, iniciado o ano letivo e ultrapassada a oposição inicial dos mais resistentes, se os professores deste Portugal não demonstrarem que estão descontentes com as políticas educativas deste Governo, os que estão fora do sistema não passarão de distantes memórias e a Escola Pública, tal como a conhecíamos, desaparecerá.
Digamos de uma vez por todas: BASTA."

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Nova Vigília pela Educação- Daqui a pouco!


O "Eu vou" do cartaz desta vez não será possível, pelos mesmos motivos da minha não ida à manifestação Nacional de Sábado passado, 15 de Setembro.
E mais uma vez com muita mágoa minha. Mágoa tripla:
- por estar impossibilitada de participar, como gosto de fazer sempre posso, nestes eventos, nos últimos anos;
-por saber qure ao não ir irei contribuir para a redução do número dos participantes, numa classe docente que parece ainda mais  desunida, passiva e apática  perante o esmigalhar dos seus Direitos do que a população em geral...;
- pela razão imediata, derivada da palavra "mágoa/magoar" em si, que me prende em casa e curtos arredores.
Ainda pensei ir  na mesma,no estilo "custe o que custar" (mas livre de impostos), fiada em momentâneas melhoras no fim-de-semana, achando que, como é uma Vigília e não uma marcha, até poderia lá estar,sem esforços demais coisa e tal... Mas o maldito bom senso venceu e algum retrocesso poderia de facto surgir do esforço  a que uma verdadeira Vigília sempre compromete (vou ter saudades do meu pequeno "clube dos Cinco" e de todos os colegas amigos que por lá iria reencontrar).
A minha família olha com alguma preocupação o meu activismo em geral, mas sei que desta vez iria ouvir "das boas" por me meter nesta aventura.Da família e do médico. Piorar não quero de facto. Ainda quero vir a poder "pedalar muito" nestas andanças (já que se prevê que as desgraças nacionais e para a Escola Pública  ainda não vieram todas...). Vou poupar-lhe, à minha família, mais essa preocupação extra. :-/
MAS FAÇO UM APELO. Espero que os colegas tenham consciência e adiram em massa. E também os pais e todos os que se preocupam com a Educação Pública em Portugal.Aproveitem até o balanço do dia 15 de Setembro! Não se pode esmorecer, como os desgovernantes pretendem dos cidadãos que desprezam constantemente. Vejam o horário. Em Lisboa é frente ao Parlamento e no Porto é na Praça da Liberdade.
Bem... quem sabe se, até daqui a pouco ainda me dá para a "extravagância" e... acabo por ir... :-P

sábado, 15 de setembro de 2012

15/SETEMBRO/2012 - UNIDOS CONTRA A TROIKA, TODOS NA RUA!



Com grande pena minha, desta vez estou impedida de ir. Com "peias" mesmo!
 Mas   o meu coração está com todos os meus concidadãos que se vão manifestar (a partir desta hora mesmo), com toda a justiça e indignação legítima que já tardava a vir à tona!
Então? Acham que há mais lugar para tolerância e contemplações? Eu não. Prezo muito a Justiça e revoltam-me os regimes e as pessoas que praticam a Injustiça, contra os seus governados, contra os outros seres humanos em geral, especialmente contra aqueles que mais pacientes são... Que querem, é um nervoso miudinho que me dá nessas situações e não me calo. Acabo a sofrer com isso, mas não me importo ("A razão mesmo vencida/ não deixa de ser Razão", como diz o poeta Aleixo). Blargh para todos vocês, seres injustos, social e pessoalmente! Nem que tenham a lata de se esconderem por detrás da mentira , da falsa valentia,da manipulação insensível e  da arrogância oca que aprenderam a cultivar  desde jovens nas vossas emproadas viditas...
Junto também dua excelentes cartas abertas que aí circulam. A ler. Sublinho que não são minhas, mas subscrevo-as, de duas gerações diferentes que são.Como diz o escritor Eugénio Lisboa numa das cartas, também eu me sinto "exilada no meu próprio país" e a sensação é horrível, creio que a maioria dos que aqui passam também o sentem. Usurpados nos nossos direitos de cidadania e Liberdade...
Aqui vou torcer para que os portugueses façam valer a Liberdade que nos resta neste protesto!
Obrigada Paula (video) e Sílvia (cartas). São umas querida amigas! Seres humanos Cinco Estrelas e não "pálidos" projectos de  seres humanos, desses infelizes feitos de papelão ou megabytes...
O cartaz da manif. em Lisboa(mas há mais umas dezenas de cidades a convocar, de Norte a Sul do país):

(riem-se de quê?! O  cínico e sinistro Gasparov rir-se-á ao ritmo zombie também? aqui parece bem celerezito, a gozar com Portugal de outra forma...)
E AS CARTAS:
1ª- "Vão-se foder"
"Descobri este texto de uma portuguesa de 32 anos, uma cidadã que diz o que sente e pensa a partir da sexta-feira passada. É um texto impressionante, que vivamente recomendo. Leiam, por favor, até ao fim.

"Vão-se foder.
Na adolescência usamos vernáculo porque é “fixe”. Depois deixamo-nos disso. Aos 32 sinto-me novamente no direito de usar vernáculo, quando realmente me apetece e neste momento apetece-me dizer: Vão-se foder!
Trabalho há 11 anos. Sempre por conta de outrém. Comecei numa micro empresa portuguesa e mudei-me para um gigante multinacional.
Acreditei, desde sempre, que fruto do meu trabalho, esforço, dedicação e também, quando necessário, resistência à frustração alcançaria os meus objectivos. E, pasme-se, foi verdade. Aos 32 anos trabalho na minha área de formação, feliz com o que faço e com um ordenado superior à média do que será o das pessoas da minha idade.
Por isso explico já, o que vou escrever tem pouco (mas tem alguma coisa) a ver comigo. Vivo bem, não sou rica. Os meus subsídios de férias e Natal servem exactamente para isso: para ir de férias e para comprar prendas de Natal. Janto fora, passo fins-de-semana com amigos, dou-me a pequenos luxos aqui e ali. Mas faço as minhas contas, controlo o meu orçamento, não faço tudo o que quero e sempre fui educada a poupar.
Vivo, com a satisfação de poder aproveitar o lado bom da vida fruto do meu trabalho e de um ordenado que batalhei para ter.
Sou uma pessoa de muitas convicções, às vezes até caio nalgumas antagónicas que nem eu sei resolver muito bem. Convivo com simpatia por IDEIAS que vão da esquerda à direita. Posso “bater palmas” ao do CDS, como posso estar no dia seguinte a fazer uma vénia a comunistas num tema diferente, mas como sou pouco dado a extremismos sempre fui votando ao centro. Mas de IDEIAS senhores, estamos todos fartos. O que nós queríamos mesmo era ACÇÕES, e sobre as acções que tenho visto só tenho uma coisa a dizer: vão-se foder. Todos. De uma ponta à outra.
Desde que este pequeno, mas maravilhoso país se descobriu de corda na garganta com dívidas para a vida nunca me insurgi. Ouvi, informei-me aqui e ali. Percebi. Nunca fui a uma manifestação. Levaram-me metade do subsídio de Natal e eu não me queixei. Perante amigos e família mais indignados fiz o papel de corno conformado: “tem que ser”, “todos temos que ajudar”, “vamos levar este país para a frente”. Cheguei a considerar que certas greves eram uma verdadeira afronta a um país que precisava era de suor e esforço. Sim, eu era assim antes de 6ª feira. Agora, hoje, só tenho uma coisa para vos dizer: Vão-se foder.
Matam-nos a esperança.
Onde é que estão os cortes na despesa? Porque é que o 1º Ministro nunca perdeu 30 minutos da sua vida, antes de um jogo de futebol, para nos vir explicar como é que anda a cortar nas gorduras do estado? O que é que vai fazer sobre funcionários de certas empresas que recebem subsídios diários por aparecerem no trabalho (vulgo subsídios de assiduidade)?… É permitido rir neste parte. Em quanto é que andou a cortar nos subsídios para fundações de carácter mais do que duvidoso, especialmente com a crise que atravessa o país? Quando é que páram de mamar grandes empresas à conta de PPP’s que até ao mais distraído do cidadão não passam despercebidas? Quando é que acaba com regalias insultosas para uma cambada de deputados, eleitos pelo povo crédulo, que vão sentar os seus reais rabos (quando lá aparecem) para vomitar demagogias em que já ninguém acredita?
Perdoem-me a chantagem emocional senhores ministros, assessores, secretários e demais personagem eleitos ou boys desta vida, mas os pneus dos vossos BMW’s davam para alimentar as crianças do nosso país (que ainda não é em África) que chegam hoje em dia à escola sem um pedaço de pão de bucho. Por isso, se o tempo é de crise, comecem a andar de opel corsa, porque eu que trabalho há 11 anos e acho que crédito é coisa de ricos, ainda não passei dessa fasquia.
E para terminar, um “par” de considerações sobre o vosso anúncio de 6ª feira.
Estou na dúvida se o fizeram por real lata ou por um desconhecimento profundo do país que governam.
Aumenta-me em mais de 60% a minha contribuição para a segurança social, não é? No meu caso isso equivale a subsídio e meio e não “a um subsído”. Esse dinheiro vai para onde que ninguém me explicou? Para a puta de uma reforma que eu nunca vou receber? Ou para pagar o salário dos administradores da CGD?
Baixam a TSU das empresas. Clap, clap, clap… Uma vénia!
Vocês, que sentam o já acima mencionado real rabo nesses gabinetes, sabem o que se passa no neste país? Mas acham que as empresas estão a crescer e desesperadas por dinheiro para criar postos de trabalho? A sério? Vão-se foder.
As pequenas empresas vão poder respirar com essa medida. E não despedir mais um ou dois.
As grandes, as dos milhões? Essas vão agarrar no relatório e contas pôr lá um proveito inesperado e distribuir mais dividendos aos accionistas. Ou no vosso mundo as empresas privadas são a Santa Casa da Misericórdia e vão já já a correr criar postos de trabalho só porque o Estado considera a actual taxa de desemprego um flagelo? Que o é.
A sério… Em que país vivem? Vão-se foder.
Mas querem o benefício da dúvida? Eu dou-vos:
1º Provem-me que os meus 7% vão para a minha reforma. Se quiserem até o guardo eu no meu PPR.
2º Criem quotas para novos postos de trabalho que as empresas vão criar com esta medida. E olhem, até vos dou esta ideia de graça: as empresas que não cumprirem tem que devolver os mais de 5% que vai poupar. Vai ser uma belo negócio para o Estado… Digo-vos eu que estou no mundo real de onde vocês parecem, infelizmente, tão longe.
Termino dizendo que me sinto pela primeira vez profundamente triste. Por isso vos digo que até a mim, resistente, realista, lutadora, compreensiva… Até a mim me mataram a esperança.
Talvez me vá embora. Talvez pondere com imensa pena e uma enorme dor no coração deixar para trás o país onde tanto gosto de viver, o trabalho que tanto gosto de fazer, a família que amo, os amigos que me acompanham, onde pensava brevemente ter filhos, mas olhem… Contas feitas, aqui neste t2 onde vivemos, levaram-nos o dinheiro de um infantário.
Talvez vá. E levo comigo os meus impostos e uma pena imensa por quem tem que cá ficar.
Por isso, do alto dos meus 32 anos digo: Vão-se foder"


2ª- CARTA DE EUGÉNIO LISBOA AO P.-M.
CARTA AO PRIMEIRO-MINISTRO DE PORTUGAL

Exmo. Senhor Primeiro Ministro

Hesitei muito em dirigir-lhe estas palavras, que mais não dão do que uma pálida ideia da onda de indignação que varre o país, de norte a sul, e de leste a oeste. Além do mais, não é meu costume nem vocação escrever coisas de cariz político, mais me inclinando para o pelouro cultural. Mas há momentos em que, mesmo que não vamos nós ao encontro da política, vem ela, irresistivelmente, ao nosso encontro. E, então, não há que fugir-lhe.

Para ser inteiramente franco, escrevo-lhe, não tanto por acreditar que vá ter em V. Exa. qualquer efeito — todo o vosso comportamento, neste primeiro ano de governo, traindo, inescrupulosamente, todas as promessas feitas em campanha eleitoral, não convida à esperança numa reviravolta! — mas, antes, para ficar de bem com a minha consciência. Tenho 82 anos e pouco me restará de vida, o que significa que, a mim, já pouco mal poderá infligir V. Exa. e o algum que me inflija será sempre de curta duração. É aquilo a que costumo chamar “as vantagens do túmulo” ou, se preferir, a coragem que dá a proximidade do túmulo. Tanto o que me dê como o que me tire será sempre de curta duração. Não será, pois, de mim que falo, mesmo quando use, na frase, o “odioso eu”, a que aludia Pascal.

Mas tenho, como disse, 82 anos e, portanto, uma alongada e bem vivida experiência da velhice — a minha e da dos meus amigos e familiares. A velhice é um pouco — ou é muito – a experiência de uma contínua e ininterrupta perda de poderes. “Desistir é a derradeira tragédia”, disse um escritor pouco conhecido. Desistir é aquilo que vão fazendo, sem cessar, os que envelhecem. Desistir, palavra horrível. Estamos no verão, no momento em que escrevo isto, e acorrem-me as palavras tremendas de um grande poeta inglês do século XX (Eliot): “Um velho, num mês de secura”... A velhice, encarquilhando-se, no meio da desolação e da secura. É para isto que servem os poetas: para encontrarem, em poucas palavras, a medalha eficaz e definitiva para uma situação, uma visão, uma emoção ou uma ideia.

A velhice, Senhor Primeiro Ministro, é, com as dores que arrasta — as físicas, as emotivas e as morais — um período bem difícil de atravessar. Já alguém a definiu como o departamento dos doentes externos do Purgatório. E uma grande contista da Nova Zelândia, que dava pelo nome de Katherine Mansfield, com a afinada sensibilidade e sabedoria da vida, de que V. Exa. e o seu governo parecem ter défice, observou, num dos contos singulares do seu belíssimo livro intitulado The Garden Party: “O velho Sr. Neave achava-se demasiado velho para a primavera.” Ser velho é também isto: acharmos que a primavera já não é para nós, que não temos direito a ela, que estamos a mais, dentro dela... Já foi nossa, já, de certo modo, nos definiu. Hoje, não. Hoje, sentimos que já não interessamos, que, até, incomodamos. Todo o discurso político de V. Exas., os do governo, todas as vossas decisões apontam na mesma direcção: mandar-nos para o cimo da montanha, embrulhados em metade de uma velha manta, à espera de que o urso lendário (ou o frio) venha tomar conta de nós. Cortam-nos tudo, o conforto, o direito de nos sentirmos, não digo amados (seria muito), mas, de algum modo, utilizáveis: sempre temos umas pitadas de sabedoria caseira a propiciar aos mais estouvados e impulsivos da nova casta que nos assola. Mas não. Pessoas, como eu, estiveram, até depois dos 65 anos, sem gastar um tostão ao Estado, com a sua saúde ou com a falta dela. Sempre, no entanto, descontando uma fatia pesada do seu salário, para uma ADSE, que talvez nos fosse útil, num período de necessidade, que se foi desejando longínquo. Chegado, já sobre o tarde, o momento de alguma necessidade, tudo nos é retirado, sem uma atenção, pequena que fosse, ao contrato anteriormente firmado. É quando mais necessitamos, para lutar contra a doença, contra a dor e contra o isolamento gradativamente crescente, que nos constituímos em alvo favorito do tiroteio fiscal: subsídios (que não passavam de uma forma de disfarçar a incompetência salarial), comparticipações nos custos da saúde, actualizações salariais — tudo pela borda fora. Incluindo, também, esse papel embaraçoso que é a Constituição, particularmente odiada por estes novos fundibulários. O que é preciso é salvar os ricos, os bancos, que andaram a brincar à Dona Branca com o nosso dinheiro e as empresas de tubarões, que enriquecem sem arriscar um cabelo, em simbiose sinistra com um Estado que dá o que não é dele e paga o que diz não ter, para que eles enriqueçam mais, passando a fruir o que também não é deles, porque até é nosso.

Já alguém, aludindo à mesma falta de sensibilidade de que V. Exa. dá provas, em relação à velhice e aos seus poderes decrescentes e mal apoiados, sugeriu, com humor ferino, que se atirassem os velhos e os reformados para asilos desguarnecidos, situados, de preferência, em andares altos de prédios muito altos: de um 14º andar, explicava, a desolação que se comtempla até passa por paisagem. V. Exa. e os do seu governo exibem uma sensibilidade muito, mas mesmo muito, neste gosto. V. Exas. transformam a velhice num crime punível pela medida grande. As políticas radicais de V. Exa, e do seu robôtico Ministro das Finanças — sim, porque a Troika informou que as políticas são vossas e não deles... — têm levado a isto: a uma total anestesia das antenas sociais ou simplesmente humanas, que caracterizam aqueles grandes políticos e estadistas que a História não confina a míseras notas de pé de página.

Falei da velhice porque é o pelouro que, de momento, tenho mais à mão. Mas o sofrimento devastador, que o fundamentalismo ideológico de V. Exa. está desencadear pelo país fora, afecta muito mais do que a fatia dos velhos e reformados. Jovens sem emprego e sem futuro à vista, homens e mulheres de todas as idades e de todos os caminhos da vida — tudo é queimado no altar ideológico onde arde a chama de um dogma cego à fria realidade dos factos e dos resultados. Dizia Joan Ruddock não acreditar que radicalismo e bom senso fossem incompatíveis. V. Exa. e o seu governo provam que o são: não há forma de conviverem pacificamente. Nisto, estou muito de acordo com a sensatez do antigo ministro conservador inglês, Francis Pym, que teve a ousadia de avisar a Primeira Ministra Margaret Thatcher (uma expoente do extremismo neoliberal), nestes termos: “Extremismo e conservantismo são termos contraditórios”. Pym pagou, é claro, a factura: se a memória me não engana, foi o primeiro membro do primeiro governo de Thatcher a ser despedido, sem apelo nem agravo. A “conservadora” Margaret Thatcher — como o “conservador” Passos Coelho — quis misturar água com azeite, isto é, conservantismo e extremismo. Claro que não dá.

Alguém observava que os americanos ficavam muito admirados quando se sabiam odiados. É possível que, no governo e no partido a que V. Exa. preside, a maior parte dos seus constituintes não se aperceba bem (ou, apercebendo-se, não compreenda), de que lavra, no país, um grande incêndio de ressentimento e ódio. Darei a V. Exa. — e com isto termino — uma pista para um bom entendimento do que se está a passar. Atribuíram-se ao Papa Gregório VII estas palavras: “Eu amei a justiça e odiei a iniquidade: por isso, morro no exílio.” Uma grande parte da população portuguesa, hoje, sente-se exilada no seu próprio país, pelo delito de pedir mais justiça e mais equidade. Tanto uma como outra se fazem, cada dia, mais invisíveis. Há nisto, é claro, um perigo.

De V. Exa., atentamente,

Eugénio Lisboa

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Frente à DREN-Porto (concentração de docentes,24 de Julho de 2012)

(c) Margarida Alegria (Porto, 24.7-2012, foto de telemóvel. "Destruir a Escola é arruinar o País")

(c)Margarida Alegria (Porto, 24-7-2012, foto de telemóvel . O Cartaz daquela colega diz: "Os professores são o Sísifo da Educação")
Finalmente com rede e tempo suficiente para postar aqui um apontamento sobre a recente concentração de docentes da semana passada.
Neste caso, trata-se da primeira delas, no Porto, frente à DREN, no dia 24 de Julho.
Àparte o sempre revigorante reencontro com com colegas de outras lutas, sobrou um amargo de desilusão, por isso estou sem muitas palavras(ou menos que o costume, eheh).
Balanço: no Porto dizem que uns 300, que nem enchiam as ruas; em Coimbra, no dia seguinte, uns 600, (vá lá... será por ser a terra do Mário Nogueira?);  em Évora as notícias falam em meia centena e ... aí é que é mais sintomático da desmobilização...em Lisboa, frente ao MEC, dia 27... uns 150! :(
Bem, mas à noite do dia 27, nas TVs ,lá veio  Mário Nogueira cantar uma suposta vitória dos docentes , numa  reunião nocturna com o ministro ( sem  ceias  de pizzas e ou assinar de documentos, desta vez, menos mal!), o que baralha um pouco para quem na segunda-feira se indignara pela recusa  pelo MEC de uma reunião conjunta (sindicatos de docentes, s. de inspectores, Ass. de Pais, ass. de psicólogos-- todos finalmente unidos)!
Foi uma história mal contada: M. Nogueira a reclamar uma vitória e o Ministro a explicar que apenas escutara com atenção e prometera analisar os problemas apresentados... e a dizer que não havia grande contestação docente! :( VER AQUI o VIDEO da sic que resume os depoimentos.E não se fiem na voz suave nde NCrato a desvalorizar a contestação).
Bem... as minhas/nossas horas na concentração:
-Bandeiras brancas do SPN, uma rua providencialmente não muito aberta ao sol que, esse sim se manifestava  em força nesse dia;
-reencontros alegres e conhecimento pessoal de mais alguns docentes e docentes-bloggers, desalentados de lutas mas presentes;
-Discurso de Mário Nogueira que, como de costume era fluido e estruturado, mas que não me pareceu nos melhores dias de ânimo nem de convicção, embora prometendo o reforçar da luta...
Logo estranhei que começasse a dizer que na segunda ATÉ teriam consentido reuniões separadas, CASO apenas o MEC tivesse sido leal a marcar esssa agenda, em vez de marcar encontros a horas diferentes para os vários representantes, mas com estes a julgar que a hora que tinham recebido era para a reunião conjunta que haviam pedido também EM CONJUNTO;
-Leitura do documento a entregar ao director da DREN- Alguns docentes queriam falar? Lá foi um ou outro discurso de apelo... segue-se música Joséafonsina, lai larai....
- Mais de uma hora de espera pelo regresso da delegação ao interior das instalações da DREN, temendo alguns que afinal a Tellepizza tivesse passado também por ali;
- Saída com a súmula da reunião: o director da DREN fora afável,  blablá e dissera que os directores é que estavam a ser alarmistas, muitos é que não haviam interpretado bem a Lei e normas fornecidas pelo MEC (!!!), enfim...
- Novo discurso de despedida pelos delegados da Fenprof, com um remate bastante desconcertante para todos que esperavam mais: que  a 5 de Outubro haveria uma brava iniciativa e coisa e tal e... que no arranque lectivo seriam pensadas acções.. SIMBÓLICAS! "simbólicas"? O despedimento dos  colegas contratados(e poucos estavam lá... como  costume...!) está longe de ser "simbólico"! Nem tão pouco o enviar para a prateleira de transição do DACL e dos horários zero tantos milhares de professores que deram os melhores anos das suas vidas à causa e ao ensino Públicos! Bandeiras nos portões? palavras de ordem? folclores?!
Sobre isto deixo aqui um post do Luís Costa, do belo  blog "DARDOMEU", que exprime muito melhor tudo o que eu também senti e gostaria dedesabafar(Aqui: LUTA MARIQUINHAS). Confesso que foi também essa uma das causas que me levou a ficar sem palavras nese dia e seguintes, para completar este post e ir apanhar um pouco de sol! Hoje sempre há já uma salutar distância do dia em que escutei aquilo! (Ai boas férias  colegas... e em Setembro vamos ver... e em Outubro a luta continua...) Eu até procuro participar em tudo o que posso, mas... os nossos colegas estão com a vida profissional e familiar em jogo! E não vamos aceitar meros remendos, que só vão adiar o sacrifício humano mais uns meses! Temos de obrigar ao rasgar destas regras economicistas e fazer ver que sem docentes nem sequer o serviço mínimo a que querem reduzir a Escola Pública pode funcionar! Como fariam se parássemos no início do ano lectivo? Iriam  colocar os seus "assessores-especialistas-da-treta"  com "equivalências" e quase iletrados a dar aulas aos miúdos? Até seria interessante observar... Temos medo de quê,  professores? Não nos roubaram  já quase tudo?! Agora levam-nos a dignidade final e a subsistência...e... boas férias?!
- EPÍLOGO: desfaz-se a manifestação, alguns vão refrescar-se ao café defronte e conversar um pouco antes de voltar a casa. Ah, um geladinho, enquanto ainda sobra algum para esses mimos tão... "acima das nossas possibilidades" de ... "perdulários-piegas"!
E um telemóvel que quase ficou perdido por lá! :/
FIM DO EPISÓDIO ( devidamente Agendado)
Margarida Alegria (30-7-2012, in blog "Alegrias e Alergias")
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NOTA de VERÃO: durante estas "férias" , centrarei os meus posts na divulgação de notícias mais importantes da Educação, no completar de posts mais antigos que ficaram esquecidos em rescunho (temas diversos) ,no completar e arrumar das páginas de Cartoons "Jejé e Companhia"(cartoons criados antes deste blog) e "Outros Cartoons"(do Facebook), lá "em cima" e sobretudo em vários episódios novos de cartoons da série dos nossos garotos (Jejé, Pepé... e Companhia). Como ainda estamos em Julho, procederei ao relato da Avaliação desta garotada, com a aparição do Nuninho que, como grande génio com que vem etiquetado, vai ser logo o primeiro a ser avaliado .! A partir de amanhã aqui o terão e aos outros em dias seguintes, Vitinho, Varito, Pepé...etc....e até o Jejé, que cá voltou de férias do colégio francês.
Quem não conhecer os restantes cartoons da série terá apenas que  procurar e clicar na etiqueta "Cartoons" , na ementa de Etiquetas ao lado direito desta página do blog, e/ou na etiqueta "Jejé e Companhia".
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Seguem-se agora dois posts breves  e essencialmente  gráficos sobre a situação educativa...

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Dar a palavra a quem vive as situações e sabe (e não a opinionmakers de pacotilha):Opinião Pública Paulo Guinote SICn.


(programa Opinião Pública da SIC, com Paulo Guinote, dia 24-7-2012)
Em tempos de plena guerra aberta  entre professores e MEC , é bom e  ao menos algumas vozes  que são convidadas pelos  Órgãos de Comunicação Social serem de quem está efectivamente "no terreno" (isto é, numa Escola), com as vantagens adicionais e não deprezíveis de,  neste caso, terem doutoramentos  não relvados" na área da Educação, uma  inteligência arguta e uma "suada" independência. Caso de Paulo Guinote, professor do ensino básico  e blogger.
Mais uma  vez estamos a ver o MEC a  empurrar os sindicatos para o canto alegando que com eles só trata de assuntos salariais, como disse há dias o Ministro Crato, num fraseado demasiado mariadelurdesco  e arrogante (argumentou  que falar com os Pais, com os sindicatos ou com os directores, sobre a Educação portuguesa, são coisas diferentes, tendo tentado armadilhar a reunião conjunta pedida por todos estes, para... reuniões separadas...enfim, manhas, nas quais desta vez todos - sindicatos de professores, Rep. de pais, sindicato dos inspectores--evitaram cair, com uma união como já não se via!...).
Urge portanto "contra-atacar" em várias frentes, sobretudo esclarecendo a POPULAÇÃO que esta "guerra" não é algo de corporativo, como sempre nos atiram à cara os comentadores que nada entendem do Tema Educação, mas que sobre tudo comentam, tarefeiros para toda a obra... Estamos sim perante um grave ataque à Escola Pública de qualidade --como a que tinhamos,apesar de tudoo que havia ainda a melhorar; quem dizia o contrário já eram os "jornaleiros" do regime central, a preparar terreno e a virar a opinião pública contra os professores, de há 10 anos a esta parte, pelo menos.
Se transformarem os docentes em ( ainda mais) precários trabalhadores à jorna e /ou à hora, como estão a fazer aos enfermeiros, alimentando mercantilismos, poderemos dizer adeus à Escola Pública verdadeira e democrática. Poderemos dizer adeus ao direito de todos os jovens cidadãos terem acesso aos estudos.
Uma dessas frentes será portanto dar voz aos professores que conhecem o sistema por dentro das Escolas, nos órgãos de comunicação e por outros meiso possíveis.
Outra será , em cada Escola, apelar à verdadeira solidariedade dos directores e de todos os docentes que ainda estão na ilusão que escaparão a este dilúvio de leis criminosas, não se trata de estar em jogo apenas cargos ou empregos, mas a Escola Pública, repito.
Urge também chamar à razão os representantes dos Pais, que parecem finalmente estar do nosso lado nesta questão fundamental.
Como disse acima, o MEC tenta mais uma vez isolar os sindicatos num suposto estatuto de  meros negociadores salariais. Felizmente parece que alguns desses sindicatos, caso da Fenprof, parece terem acordado de certa letargia em que se encontravam, adormecidos que haviam sido pelas propostas falsas mas de voz maviosa de Isabel Alçada e mais recentemente por certo tom dito "afável" deste novo ministro. Foi mais um logro, como já se vê. Então colaboremos , professores,com os sindicatos naquilo que sabem organizar bem, como as concentrações que estão a decorrer esta semana, como os comunicados e as providências cautelares e as manifestações, mas não fiquemos por aí.
Dentro das Escolas temos de pensar em formas efectivas e originais de paralisar o arranque do novo ano lectivo, não esquecendo que mais vale "prejudicarmos" um pouco alguns dias lectivos dos alunos, do que os condenar para sempre a um sistema instável e de triagem totalitária, a um sistema onde não possam sonhar mais alto e onde as portas para muitas crianças se fechem desde muito jovens, por falta de opções educativas de verdade, por não terem meios económicos ou por passarem a ter falta de professores, com os que restam completamente exaustos e sem paciência.
Há dias já se ouviu o próprio P-M a dizer que a opinião pública não estava contra as medidas que tomava, que quem o criticava era apenas a "opinião publicada". Usou inclusivé o mesmo argumento de Sócrates, quando P-M, de que quem o vaiava na rua não era a população, mas pessoas manipuladas pelos sindicatos, que o perseguiam a si e aos seus ministros, quando se deslocavam  pelo país. O mesmo senhor dissera antes de ser eleito que Jamais iria sacrificar mais o país, que jamais alegaria isto ou se justificaria com aquilo... (quem te viu e quem te vê). Por isso não esperemos resolver tudo pela via sindical: temos de abrir os olhos aos pais e restantes cidadãos , que nem sabem o que espera os seus filhos no ano lectivo que se avizinha, onde turmas com alunos a mais e professores com turmas /alunos a mais verão, a seu lado , salas novas vazias (de escolas restauradas) e professores humilhados sem turmas! Querem maior absurdo  e desperdício que este?
Escutem atentamente este programa, que é muito bom e elucidativo, embora alguns dos muitos temas arrolados e importantes tenham ficado de fora por falta de tempo.
Há também a vantagem de, contra o que é habitual, os  cidadãos comentadores deste programa serem de qualidade superior a outros em outras ocasiões, ou seja, mais esclarecidos e atentos do que a média de sexagenários que costumam ocupar as manhãs a telefonar para o Opinião Pública, passando tantas vezes ao lado do tema central e optando pelas queixas pessoais sobre as "suas dores reumáticas" e/ou a invocar  o "dótor" Salazar...
Por falar em terceira idade-- e com todo o respeito  e carinho que os idosos me suscitam quase sempre-- há coisa de dois dias um programa informativo de um dos canais por cabo (SIC, TVI?) convidava dois  sábios anciãos do país, que ilustram sintomaticamete o que eu disse acima. Não vi o programa, mas parece que foi confrangedor a quem tentou captar alguma substância do dito. Convidados: António Barreto e Manuela Ferreira Leite. Um ex-ministro da agricultura de há décadas ,  hoje intelectual de gabarito e dirigente de uma fundação que será a obra mais condigna do rei do pingo Doce. A segunda sendo  ex-ministra das Finanças, ex-diversas coisas mais e também ex-ministra (das Finanças)da Educação, de uma época em que teve de ser chamada para tapar o buraco de um cargo que ninguém queria, por ser braço de confiança do PM de então. Parece que mostraram estar mais "a leste" dos problemas educativos actuais do que se esperava, um refugiando-se nas suas teorias gerais sobre a Educação caso vivessemos num paraíso suíço  e outra refugiando-se nas suas recordações de infância, tal como todas as avós fazem para falar "do seu tempo" aos netinhos. Barreto espalhou-se um pouco a menos, mas foi confrangedor também.
Se outros "entendidos" estavam já de férias para acudirem ao programa, milhares de docentes que têm este ano as suas férias irremediavelmente estragadas se ofereceriam de bom grado para comentar toda esta desgraça e incompetência do MEC, conseguindo DE FACTO elucidar os cidadãos em vez de os incitar ao "Zapping" ou convidar a uma soneca...
Só para dar um exemplo citado por quem assistiu a estes "comentadores": Manuela Ferreira Leite admirava-se com tanta algazarra pela criação de turmas grandes e recordou com saudades os tempos liceais em que era a aluna "número trinta e tal" de uma turma enorme. Acredito: suponho que era também no tempo dos uniformes e em que as alunas tinham de alinhar pelos quadrados do corredor para entrar na sala, o tempo das aulas de  lavores  da Mocidade Portuguesa para tricotar casacos para os bebés pobrezinhos, o tempo dos professores que ditavam a "aula", digo, A LIÇÃO, e procediam ao acompanhamento "individualizado" e  à avaliação "continua" dos alunos através de "chamadas orais", enquanto marcavam o ritmo com o longo e pesado ponteiro de madeira do quadro. Nos intervalos, Manuela desembrulhava o pãozinho com marmelada e, chegada a casa, tinha pudim Boca doce para sobremesa e, depois de fazer os deveres, jogava à "macaca" no quintal. Sim, suponho que não tenha sido nada de especial pertencer a uma turma de Trinta-e-tal nesses tempos, onde possivelmente nem professores nem contínuas a tratavam sequer por Manuela, mas talvez por "menina Leite" ou por ... aluna nº 30 e tal". Era tudo igual, não fazia mal nenhum. O número bordado na bata tristonha tudo resolvia e bastava para a conhecer e identificar. Lá nos seus saudosos tempos de menina, dos tempos... talvez do Reinado de D. Maria Primeira, ou por aí... Perante tão belo passado quem quer saber das complexas realidades dos jovens alunos do Presente?
Margarida Alegria(26-7-2012, in blog "Alegrias e Alergias")

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Vigília pela Educação - Porto- zelando por um "jardim" em perigo...

(C) Margarida Alegria (Porto, 18-7-2012, Pr.da República)
Finalmente a foto-reportagem da Vigília pela Educação, no Porto (de 18 para 19 de Julho, entre as 19h e as 12h do dia seguinte, na Praça da República). Depois de muitas peripécias e problemas de rede,durante alguns dias, consegui agora  fazer um primeiro post com algumas das imagens captadas e breves legendas/apontamentos. Não são mais, as fotos, pois a bateria da máquina não aguentou até à madrugada.
Logo já sairá novo post com reflexões sobre o evento.Que espero/todos esperamos que tenha sido apenas um arranque de  muitas mais acções de protesto e de sensibilização do País-- e também de uma união muito maior entre TODOS os docentes,-- em defesa não só dos seus postos de trabalho como sobretudo em defesa do Ensino Público de qualidade.
Nesta primeira foto, captada durante a primeira hora da Vigília, o empréstimo espontâneo e providencial de um  megafone por  um cidadão que por ali passou, ajudou a esclarecer um dos objetivos da Vigília: a assinatura de uma Carta Aberta ao ministro Nuno Crato. NO arranque do evento, a que assistiram diversos jornalistas e algumas estações de TV, o número rondava a centena e meia de docentes, mas muitos transeuntes (alguns até ciclistas, como podemos ver) quiseram demonstrar a sua concordância como protesto, assinando também. A forte presença dos professores de EVT, dos mais lesados com as (des)medidas do MEC, sublinhava-se em laivos de amarelo, mas estiveram presentes colegas de todas as áreas e disciplinas, desde (alguns) professores contratados de entre os milhares  que agora são jogados para o desemprego, aos docentes com décadas de serviço e do Quadro das escolas que serão agora descartados para "horário Zero", passando por imensos que nem são agora directamente ameaçados com a mobilidade especial, mas que quiseram destacar a sua solidariedade. Vários docentes reformados, até, que, se fossem egoístas nem precisariam de se "incomodar" em ali estar,mas que sabem que a expressão "Um por todos e todos por um " não pode ser em vão.
Ao todo, naquelas horas, com mais ou menos tempo disponível para marcar presença (o trabalho nas Escolas ainda ocuparia muitos na manhã seguinte), terão passado umas 900 pessoas. Foram mais de seiscentas as assinaturas da Carta, entre docentes e cidadãos que por lá passaram, considerando que muitos só não assinaram pois não se aperceberam da pequena mesa que se rodeava da multidão.
Mais poderiamos ser? Muitos dos mais afectados ficaram petrificados e desanimados em casa? Sem dúvida. Mais seremos para a próxima, que, aproveito para  anunciar, será às portas da DREN, amanhã, dia 24 de Julho, pelas 17 horas (pedem que as vestes sejam brancas, mas claro que não é obrigatório!). Em Coimbra o protesto junto à DREC será no dia 25 e em Lisboa será no dia 27, à porta do Ministério, na Av. 5 de Outubro (sempre às 17 h).
Para além disso, numa sugestão do João P. Soares, embora alguns já tenham entrado em férias oficiais, os docentes pelo país poderiam pedir a convocação de reuniões Gerais e/ou de Departamento com quem ainda "por cá "andasse", para que se pudessem delinear estratégias para o arranque do Ano Lectivo, de verdadeiro protesto nacional DENTRO das escolas, de forma a demonstrarmos ao MEC que todos os docentes somos poucos, uns sem os que partem, para que o Sistema possa ser de verdadeira qualidade e excelência que é tão apregoada poe sucessivos governos e Ministérios! Docentes e directores têm de se mostrar colegas e unidos de uma vez por todas.Tais reuniões esta semana ainda, ou até ao fim do  mês. Que tal? PASSEM a PALAVRA, por favor. Não podemos deixar tudo esmorecer até Setembro...
(C) Margarida Alegria (Porto, 18.7.2012)
Tantos colegas de ET e de EVT "escorraçados" por um Currículo novo que despreza as artes! Ou, nas palavras bacocas do ministro , o pensamento de que o "desabrochar da criatividade" não se pode verificar antes de se saber ler, escrever e fazer contas (!!!). Que rica visão da Educação, sim senhor...
O caso da colega A.: quase 32 anos de dedicação -- a uma carreira onde o que menos importa é o "carreirismo" de competir com os outros, mas o educar crianças e nelas ter de se centrar--, para depois escutar de governantes insensíveis e inexperientes que... já não precisam dela para nada?
Que "janelas" de "oportunidade"(no desemprego) podem existir para quem já estava nos últimos anos de uma profissão altamente especializada e de formação específica, Dr. PPC?
(C) Margarida Alegria (Porto, 18-7-2012)
Ao fim de, respectivamente, 10 e 12 anos de serviço como professoras contratadas (por um Estado que é o primeiro a saber explorar a precariedade e que nega o que seria legal de se efectivar após três anos),  as colegas que acenderam estas velas poderão tentar outros rumos de vida, quem sabe até emigrar como o Primeiro-Ministro desistente ou o turbo-licenciado Relvas aconselham.
Mas fiquem sabendo que 10 anos nesta profissão docente significam muitas horas de aprendizagem e especialização, são já muitos anos de experiência que um país ainda em Desenvolvimento deveria não desbaratar. Mas o MEC continua insensível a esta realidade, sem rumo numa política coerente de Educação, ao longo de décadas, mas especialmente nos últimos 10 anos. O frutuoso saber aproveitar da experiência dos mais velhos para irem passando o testemunho aos mais novos também não interessa  aos últimos três Ministérios que nos desgovernaram, pela forma como humilharam os docentes e fizeram milhares requerer a reforma antecipada, profundamente revoltados e desiludidos.
Empregarem docentes ou uns  meros guardadores de crianças deve ser tudo igual nas mentes de quem toma as rédeas do Ministério..."No pasa nada", como dizem os outros...
(C) Margarida Alegria (Porto,19-7-2012)
Já após a meia noite, nas horas de maior afluência (acabado as tarefas na escola, jantados...), entre as 22h e a 1h, o anunciar do ponto de situação das diversas Vigílias  a decorrer nas várias capitais de Distrito (Lisboa, Coimbra, Aveiro, Vila Real, Braga, Faro, Viseu.... e até... Guimarães, embora não sendo cap. de Distrito, mas como Capital da Cultura 2012).
Pena que muitos tenham pensado que a vigília era só dia 18 à noite e tantos tenham esquecido que, caso não pudessem então teriam toda a manhã do dia seguinte para  "Vigiar". Bem, os docentes são ainda uma classe muito intimidada para as questões que tratam da luta pelos seus direitos, talvez porque os empurraram sempre para o olharem sempre para os seus alunos primeiro.
Vamos aprendendo, paciência. Da próxima haverá mais gente, como já disse. Desde que todos metamos na cabeça que, Professores e Escolas se identificam mutuamente , pelo que excluir os primeiros destrói as segundas , sem remédio. Uma Escola não se limita a um belo edifício equipado, mas vazio  de gente e da sua "alma". E a alma da escola está em professores(sim senhores, não vamos em cantigas, está em nós também !) e alunos. Só quando todos entendermos isto é que nos deixaremos de complexos de inferioridade, que nos intimidam perante críticas externas à mínima greve ou iniciativa pela classe em si que ousamos. Daí até nos termos metido em manifestações aos sábados, para não "prejudicar alunos". E depois, que lucrou a Educação com isso se, ao voltarmos para as escolas ,fomos cedendo a todas as medidas e pressões como se nada se tivesse passado?
Sem nós, docentes, as escolas não funcionam, as crianças e jovens não aprendem verdadeiramente. Pelo mundo fora já há o alerta: o factor humano é o que mais pesa no apetrechamento das Escolas e na melhoria dos resultados. Não devemos ter receio de parar agora, de protestar e confrontar todos estes insultos à nossa dignidade, se metermos na cabeça que o temos de fazer  tem de ser feito AGORA, para que o Futuro não fique hipotecado para sempre. E qualquer ser pensante sabe que,depois, o tentar reparar o que ficar "estragado" será mais duro e mais caro do que travarmos agora este carro Educativo desgovernado para o precipício da precariedade e para o mercantilismo...
(C) Margarida Alegria (Porto, 19-7-2012)
Perto das três da manhã. A cidade dorme. Velas formando símbolos  e letras ( amor, infinito, E de educação, EVT...) e  decorando o jardim, vão mantendo acesa a chama da Esperança que ainda nos resta e marcando a presença da Vigília, entre as dezenas  que vão podendo ficar, tendo todas estas luzes sobrevivido ao orvalho da noite sob a guarda de  um número que poderia dar título a uma aventura dos cinco , de Enid Blyton: quatro docentes "maduros" e um cão. Mas. como cantava Zeca Afonso, se "houver uma praça de gente madura" não haverá só "gaivotas em terra" nem ,acrescento eu, pessoas que se deixam atemorizar e/ou se conformam com o que é inaceitável...
Chegada a manhã, lá se apagaram as velas a pedido da chefe de manutenção do jardim. Os jardins querem-se despojados de tudo o que não seja árvores relva e flores. Sim. Entendemos o zelo de quem quer fazer a parte que lhe cabe pelo país. Nós também gostariamos que o nosso jardim (dos docentes) que é a Escola Pública  estivesse apenas centrada no desabrochar das flores que são os nossos alunos, livre de todos os papéis e "adereços" vários (partidários, economicistas...) com que quem está fora delas insiste em atulhá-la. E que tantas vezes não nos vissemos obrigados a  lutar contra as "pragas" burocráticas com que tentam infestar as suas "árvores" , o trabalho docente de ensinar.
Comecemos agora, ainda vamos a TEMPO, a exigir com todas as letras, que de uma vez por todas  possamos ser escutados para as decisões que são tomadas para o "nosso jardim": A ESCOLA PÚBLICA.
(bem... disse que ia apenas escrever legendas, mas fugiu-me neste post já o teclado para a reflexão... Mas já sabem como sou,eheh...e no habitual estilo colorido e um tanto dadaísta graficamente..)
Margarida Alegria (23-7-2012, in blog "Alegrias e Alergias")